sábado, abril 18, 2009

UM TENENTE DE MAIO – CAPITÃO DE ABRIL




Antes do dia aniversário do 25 de Abril, quero homenagear em uma única pessoa quantos foram capazes de incomodar e arriscar a sua existência até ao sacrifício da própria vida, para que aquele dia fosse possível e enfim actualizado o ideal no tempo. Quero, em especial, homenagear os que morreram ou foram mortos antes de 1974.  E foram estes afinal talvez os mais felizes, que não chegaram a ver a flor desabrochada no tempo logo tão depressa fanada e morta.

Mas quem, que pessoa, se tantos (ou, se não tantos, muitos apesar de tudo!) e tão bons houve, desde o operário ou camponês humildes (como a jovem que “Chamava-se Catarina / O Alentejo a viu nascer”…), mais ou menos inocentemente seduzidos pela beleza do venenoso fruto comunista, até a figuras gradas da vida social e cultural, mais ou menos conhecidas do leitor português?! Pois escolherei, em sinal de aceno aos lugares do futuro, alguém que esteve profundamente ligado a África e um pouco também ao Brasil, onde faleceu; que foi no seu tempo bem conhecido até à celebridade, e hoje está demasiadamente esquecido.

Imagine o leitor em uma só pessoa o destemor guerreiro de um Mousinho de Albuquerque; um batedor da geografia, fauna e flora africanas, da qualidade dos Serpa Pinto, Capelo e Ivens; um visionário e realista administrador de terras e gentes, como era o seu admirado amigo João de Almeida (de quem já falei aqui); alguém que, como estes africanistas, pensava que estava tudo por fazer em África e era homem capaz de tudo fazer: que poderia lá ter levantado um Estado organizado e próspero, com a mesma decisão hábil e firme com que por cá levantou a Emissora Nacional de radiodifusão ou a I Exposição Colonial Portuguesa. -

O capitão Henrique Carlos da Malta Galvão (1895-1970) teria de se contentar com ser apenas governador da província angolana da Huíla e inspector superior colonial, que exerceu por espaço de 15 anos. E foi nesta última qualidade que começaram os seus problemas com o regime saído da “Revolução Nacional” de Maio de 1926, que o então jovem tenente ajudou a implantar e depois a defender de armas na mão. Chegado de Angola, apresenta ao então ministro responsável um volumoso e minucioso processo denunciador da extensão e profundidade das traficâncias e corrupções que, à margem da lei ou contra ela, gangrenavam o tecido social e económico daquela colónia portuguesa. Como o ministro não respondesse logo e Galvão não era homem para muita espera, vá de denunciar alto e bom som os casos escandalosos numa série de discursos na Assembleia Nacional, de que era deputado por Angola. E concluía sem margem para dúvidas pelo total fracasso da obra missionária e civilizadora africana de Portugal. Tremeram uns de medo, outros de ira, todos não esqueceram nem perdoaram. Demitido de inspector e não proposto para deputado na legislatura seguinte, deixava uma vasta obra escrita de estudos, relatórios, memórias romanceadas de explorações, caçadas e aventuras, toda uma mina de informações hoje preciosas para cientistas e historiadores da nossa África entre os anos 20-60; mas também um deleite para o simples leitor de boas aventuras e apreciador duma linguagem viva e pitoresca, sempre natural sem deixar de ser correcta e exibir a cada linha o talento literário do escritor inspirado e instruído.

Seguro da bondade e importância das razões que lhe assistiam, o génio impetuoso e colérico do homem não podia sofrer sem resposta as sanções políticas e profissionais ao funcionário público que era. A partir de 1945 Galvão aproxima-se da oposição política não comunista, apoiando e colaborando com a candidatura à presidência da República do almirante Quintão Meireles, alternativa à do regime, em 1951. Logo após cria uma Organização Cívica Nacional, uma “liga democrática” que entra a conspirar para o derrube de Salazar. A PIDE invade-lhe a sede, Galvão é levado a tribunal e condenado a 3 anos de prisão mais a perda da reforma, que antecipara e de que já usufruía. Dele saiu a ideia que, apoiada com os argumentos da autoridade e incentivo dum António Sérgio, decidiram o general Humberto Delgado à célebre campanha de candidatura à presidência da Republica em 1958, que abalou o regime. A campanha feita e os resultados viciados da eleição desfeita convenceram o capitão Galvão de que “isto só lá vai com um golpe militar”, como 15 anos mais tarde diria o capitão de Abril Vasco Lourenço. Ora acontecia que muitos na oposição hesitavam, e outros (os comunistas) não confiavam nem acreditavam. Galvão decide agir por conta própria e dar um rebate cívico da causa em dois inauditos e imaginativos golpes de audácia que são também o retrato do homem. O primeiro, em Janeiro de 1961, chamou-se “operação Dulcineia”…

… O nosso paquete Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação, fazia carreira regular entre Portugal e os Estados Unidos, com escala na Venezuela, Brasil e Antilhas. Entre estas e Miami um comando de 12 portugueses, e mais 12 espanhóis anti-franquistas refugiados na América do Sul, chefiado por Galvão, apodera-se do navio com 300 tripulantes e 600 passageiros a bordo; infelizmente não sem a morte de um tenente piloto português e ferimentos noutro tripulante, únicos da tripulação que tentaram resistir ao assalto. O plano era desviar rapidamente o barco para a ilha espanhola de Fernando Pó, no golfo da Guiné, e depois descerem para Angola. Não chegaram lá, mas o inédito e atrevido da acção, os comunicados lançados da rádio do navio esclarecendo as motivações políticas, causaram uma formidável impressão e muitas simpatias a nível internacional, com sério embaraço do regime salazariano. (Uma repercussão pública que ainda hoje veio a chegar à ciberesfera e é memorada em vários sítios estrangeiros da net!) A 2 de Fevereiro, o barco, rebaptizado Santa Liberdade, chega ao porto brasileiro do Recife e é entregue em troca do asilo negociado e concedido pelo governo do presidente Jânio Quadros.

Foi a segunda, em Novembro ainda de 61, a “operação Vagô”, executada desde Marrocos por um grupo chefiado por Palma Inácio, que levou um avião da TAP a rasar a cabeça do marquês de Pombal na Rotunda e a precipitar uma chuva de panfletos pela Baixa lisboeta, Palmela, Setúbal e Faro. O leitor interessado nos pormenores da aventura bem sucedida, pode ler aqui uma saborosa descrição.

Entretanto, na oposição, a desde sempre coerente e intransigente determinação de não fazer o mínimo entendimento frentista com os comunistas, por um lado; e a sua também constante convicção de que as colónias, sem prejuízo da garantia do direito à auto-determinação, não estavam no momento preparadas para a independência, fragilizavam e isolaram Galvão, conduzindo à ruptura com Delgado e à descoordenação do citado desvio do avião com o levantamento de Beja. Em 1963, o prestígio internacional do grande capitão oposicionista era ainda suficiente para ser convidado a discursar na sede das Nações Unidas, onde por duas horas, teve oportunidade de desmontar a política colonial salazarista, mas sem deixar de denunciar também a direcção e previsíveis funestas consequências para os povos africanos (já experimentadas no Congo ex-belga) da guerrilha levantada dois anos antes no norte de Angola. Aqui, uma vez mais, Galvão viu bem e foi profético.

Faleceu em Julho de 1970, sem rever a pátria amada, curvado pela Alzheimer, não pelo total de 59 anos de prisão que o regime que combateu lhe acumulou em cima. Em 1965, dissera de si mesmo:

« Sempre fui mais um “franco-atirador” do que homem de me agrupar. Entendo-me com as minhas ideias, a que faço o possível por ser fiel, mas não me entendo com os homens que, em grande maioria, traem as ideias ou as sofismam. »



1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Excelente ideia lembrar Henrique Galvão.
Bem haja

6:44 da tarde  

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