quarta-feira, maio 27, 2009

A EXPERIÊNCIA DO ÊXTASE

« …. Posso somente repetir e recordar as condições que me pareceram necessárias, mas nunca suficientes: o silêncio, a imobilidade, a soledade; e também a presença duma doce e brilhante luz do sol. Mas estas condições vejo-as unicamente como aquelas, bem poucas, que eu conheço (entre quantas outras desconhecidas?). Quantas vezes na minha vida, em que número de instantes, não se repetiram elas, não se reuniram elas, sem que no entanto nada de singular se tivesse produzido? Porquê, nesse número indeterminado de instantes, somente essas duas vezes, únicas? ( … )

E entre essas condições, há, talvez a mais importante: nunca procurar nada. Tudo vem ao nosso encontro, subitamente. É sempre um movimento em nossa direcção, uma descida por caminhos escondidos; e um desvendar súbito em face de nós. Tudo fazendo-se espontaneamente, fora da nossa vontade ou iniciativa. Onde mesmo está ausente qualquer forma de intenção da nossa parte. E fora de circunstâncias e de condicionalismos de tempo ou de espaço: na sua anulação. O abismo, ou melhor, a falha, que separa os dois mundos, sobre a qual nos transportam, é uma falha no tempo e no espaço – o vazio.

Pois o que vejo neste instante de passagem, é a presença de dois mundos, separados, irredutíveis (contíguos no espaço e sincrónicos no tempo?) : o mundo profano onde estava há pouco e o mundo divino onde penetrei subitamente, e que subitamente me envolveu totalmente. Me envolveu e me separou do mundo onde estava no momento imediatamente precedente, e que agora era exterior e distante: invisível e inexistente. Aí onde penetrei era uma esfera de cristal, onde tudo era luz e silêncio – tudo isso que subitamente veio e me envolveu. Esfera feita duma substância poderosamente dura e frágil. Irradiante e geometricamente definida. Fremente e calma: a verdadeira vida nesse lugar desvendada. Impondo-se por uma potência irresistível, uma autoridade incontestável; mas vulnerável, susceptível de ser posta em fuga à menor falta da minha parte. Vinda expressamente para mim, mas fugaz. Impossível de aprisionar porque indizivelmente livre. Uma só imperfeição existia nesse paraíso, não lhe pertencendo, mas acompanhando-o: a certeza do seu fim inevitável, inelutável, num momento desconhecido mas próximo. Esta apreensão subsistia, tal um ponto negro sobrenadando nesse mar cintilante de pura alegria.

Que analogia tomar no nosso mundo, aquele onde vivemos todos os dias, para tentar elucidar esta presença, esta realidade? Procuro-a, mas não a encontro em parte alguma. Não a força desencadeada duma tempestade, ou a calma submergente dum grande rio. Porque é qualquer coisa de envolvente e levitante: uma presença que de repente surge, rebenta diante de nós duma maneira nunca conhecida, nunca suspeitada; e numa tal proximidade! Como dizer tudo isto, este súbito desvendar duma serena violência? Rimbaud encontrou: “C’est la mer melée au soleil”; o que exprime um dos seus indivisíveis atributos: o esplendor em fusão, visto e sentido nesse instante (e que mais ainda?). E Dante disse um outro, a alegria: “Cio ch’io vedeva mi semblava un riso / dell’universo”. Gostaria de saber dizer um outro dos seus indivisíveis atributos: a força, esse centro da vida, seu coração ardente onde se penetra. (…)

E agora, penso naquilo que, nesses longínquos anos contemporâneos desta experiência, foi sempre a única imagem, e a mais imagem, a evocação, a mais perturbante, desse mundo que tinha conhecido (que tinha visto e onde tinha vivido um instante): a esfera de Parménides. O Ser, eternamente idêntico a si próprio, sem partes, sem passado nem futuro – a esfera bem arredondada por toda ela.

Isso que agora me aparece como um saber atingido, não por via dedutiva, especulação racional, mas por via intuitiva: através de uma visão ou estado de iluminação, numa maneira de conhecer que me parece ser a dos pré-socráticos – filósofos, videntes e poetas. »


Dalila L. Pereira da Costa, A Força do Mundo.

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