sábado, agosto 29, 2009

AS IDADES DA VIDA



A vida he assy como morte.

Orto do Esposo (séc. XV)
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Uma criança, de sexo velado pelo véu, com um cavalinho de pau e uma bola de pano que lembra também uma maçã. A maçã do Pecado, ainda não provada mas à mão de o ser.

Uma jovem mulher, de pele muito clara, humana ou, se divina, Vénus com a criança Cupido aos pés. Mais provavelmente humana, por causa da ampulheta sobre a cabeça. Tem o olhar ausente, a alma captivada na contemplação da beleza visível. O espelho em que se mira é no entanto convexo: deforma-lhe a imagem. Na iconologia, o espelho é frequentemente um adereço alegórico da Vanitas (própria e literalmente: a vacuidade, o vazio).

Por detrás, uma mulher velha ampara o espelho onde se remira a jovem. Tem um comprido, desproporcionado braço, e sustém com ar agressivo o braço da morte, que encara de frente. Os quatro dedos da mão revelam ao espectador que não deve esquecer de contar nas idades da vida com a quarta personagem, que sobressai ocupando todo o lado direito do quadro. Mesmo que a ampulheta do tempo ainda esteja meio por meio.

O véu lançado desde a criança, que cobre quase inteiramente, liga, liga a jovem mulher, a morte, e ainda sobra. É como o lenço que ligava os dançarinos nas danças. A medieval Dança da Morte? Mas em vez dum esqueleto temos aqui é um cadáver ressequido, a pele esfoliada como a casca do tronco da árvore, e uma réstia de cabelos semelhantes às folhas da árvore. Não será propriamente aquela morte que leva definitivamente (o tempo ainda está a meio), mas a que entrou desde o começo e pertence à mesma natureza (morta) desta vida.

A mulher velha não tem véu, nem ilusões: sábia, olha directamente, sem deformadores espelhos. De facto, olha direitamente, mais para cima e para além da morte…



[ O quadro é de Hans Baldung ( c.1485-1545) e tem tido vários nomes ao longo dos tempos. Na cidade de Estrasburgo, onde o pintor faleceu, as autoridades do conselho municipal, de que ele chegou a fazer parte, obrigavam as prostitutas a andar de véu na via pública…

Aos eruditos Rose-Marie Hagen e Rainer Hagen, autores de Os Segredos das Obras-Primas da Pintura ( 2 vols.), fico a dever informações curiosas e algumas sugestões interpretativas. ]

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