quinta-feira, dezembro 03, 2009

UM AVISO

« Agora seria viável a uma oligarquia tecnicamente treinada, através do controlo de aviões, navios, centrais eléctricas, transportes, etc., estabelecer uma ditadura, não exigindo qualquer conciliação entre os súbditos. (…) Estes tecnólogos científicos poderiam matar à fome uma região recalcitrante e privá-la de luz e calor e energia eléctrica, depois de encorajar à dependência destas fontes de conforto; podia inundá-la com gás venenoso ou com bactérias. A resistência seria absolutamente inútil. E os homens treinados em maquinismos encarariam o material humano do mesmo modo como tinham aprendido a ver as suas próprias máquinas, como qualquer coisa insensível governada por leis que o manipulador pode accionar em seu proveito. Um tal regime seria caracterizado por uma desumanidade fria, incomparável a tudo o que é conhecido em tiranias anteriores. (…)

Aqueles que têm o hábito de controlar mecanismos poderosos e, através desse controlo, adquiriram poder sobre seres humanos, pode-se esperar que tenham uma perspectiva imaginativa em relação aos seus súbditos que será completamente diferente daquela que têm os homens que dependem da persuasão, mesmo desonesta. A maior parte de nós, em algum momento, já molestou caprichosamente um formigueiro e observou, com um sereno contentamento, a correria resultante. Olhando do cimo de um arranha-céus cá para baixo, para o tráfego de Nova Iorque, os seres humanos deixam de parecer humanos e adquirem uma absurdidade vaga. Se alguém estivesse armado, tal como Júpiter, com um raio, haveria a tentação de o atirar para a multidão, pelo mesmo motivo que no caso do formigueiro. (…) Imagine-se um governo científico que, com medo de assassínio, vive sempre em aviões, excepto em descidas ocasionais em plataformas de aterragem nos cumes de altas torres ou em cais no meio do mar. Será provável que um tal governo tenha alguma preocupação profunda com a felicidade dos seus súbditos? Não será, pelo contrário, praticamente certo que os veria, quando tudo corresse bem, do mesmo modo impessoal com que vê as suas máquinas, mas que, quando algo acontecesse, sugerindo que afinal eles não são máquinas, o governo sentiria a raiva fria de homens cujos axiomas são questionados por subalternos e exterminaria, de qualquer modo menos trabalhoso, qualquer resistência?

Tudo isto, pensará o leitor, é mero pesadelo desnecessário. Quem me dera poder partilhar essa opinião. Estou convencido de que o poder mecânico tende a gerar uma nova mentalidade, o que torna hoje mais importante do que em qualquer outro momento no passado controlar os governos. A democracia pode ter-se tornado mais difícil devido aos desenvolvimentos da técnica, mas também se tornou mais importante. É provável que o homem que tem um vasto poder mecânico sob o seu comando se sinta, se não for controlado, um deus – não um Deus cristão do Amor, mas um Thor ou um Vulcano pagãos. (…)

Em tempos passados, os homens vendiam-se ao demónio para conseguir poderes mágicos. Hoje em dia eles adquirem estes poderes através da ciência e sentem-se compelidos a tornar-se demónios. Não há esperança para o mundo, a menos que o poder possa ser domado e posto ao serviço, não deste ou daquele grupo de tiranos fanáticos, mas de toda a raça humana – brancos, amarelos e pretos, fascistas, comunistas e democratas -, uma vez que a ciência tornou inevitável que tudo tem de viver ou tudo tem de morrer.»


[ Estes trechos das pp. 25-27, bem como os outros citados antes , são da tradução portuguesa de 1990, feita por Isabel Belchior, de O Poder. Uma Nova Análise Social. Neste linque o leitor tem em português um interessante comentário ao livro de Russell, por George Orwell:
http://criticanarede.com/html/pol_poder.html
A imagem reproduz uma Head of Leviathan, do pintor contemporâneo japonês Kazuya Akimoto.]

2 Comments:

Blogger Alexandre Dias Pinto said...

Desconhecia a existência desta obra sobre a questão do poder. Pela amostra, deve apresentar reflexões e levantar problemas bem interessantes. Pena é que os que detêm o Grande Poder neste país achem aconselhável não ler obras que problematizem a sua actuação. Bom, e se as lessem, será que as compreenderiam? Saberiam ver nelas um "espelho do governante"?

6:59 da tarde  
Blogger Pedro Isidoro said...

Caro Alexandre:

Depois de Maquiavel e dos que tomaram este a sério (há uma corrente de interpretação recente que pretende ver no mais famoso livro do florentino uma implacável sátira, ao modo do Elogia da Loucura eramiano), a veneranda literatura dos "Espelhos" de Príncipes é dum tempo que parece passado e preterido.

Hoje o "espelho" é só o dos "gabinetes de imagem" e de sondagem. O preço que pagam por isso é que o poder que conta lhes fugiu das mãos. Servem. Para entreter.

O texto de Russell avisa-nos sobre quem realmente governa fora dos espelhos das televisões.

O seu comentário lembrou-me uma hiperligação que me tinha esquecido e acrescentei agora. Será por certo do seu interesse. E tenho eu mais um motivo para lhe agradecer a atenção.

11:30 da manhã  

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