terça-feira, julho 27, 2010

PESOS (AINDA) MAIS PESADOS

« Coberta a vala, sobre ela devem ser espalhadas bolotas, de maneira que o lugar possa tornar-se verde outra vez, e a vegetação cresça espessa, pois os traços da minha campa devem desaparecer da face da Terra, como espero que a memória de mim se desvaneça da mente de todos os homens.... salvo dos poucos que na sua bondade me amaram até ao último momento, e de quem levo uma doce lembrança comigo para o túmulo. »

Eis o que dispunha Sade no seu testamento. Os maîtres à penser da moda e outros mediáticos protagonistas do aparelho cultural francês não lhe fizeram a última vontade, quando elevaram a pornografia literária às honras de edição na Bibliothèque de la Pleiade. É caso para uma paráfrase dum célebre apelo do marquês: Français, encore un éffort... – e ainda o vereis entronizado a título póstumo entre os imortais da Académie Française! Preferiram pois seguir o lógico fio da voz de certa personagem sadeana, que ambicionava um crime que “provocasse um caos de tais proporções que provocasse a corrupção geral ou um distúrbio tão formal que, mesmo depois da minha morte, os seus efeitos ainda se sentissem.” A última vontade do philosophe scélérat era mais consequente com o “sistema do nada”, que vimos já afirmado aqui; a da personagem sadeana, mais consequente com o sadismo.

Isto, aplicado à escala cosmológica do “eterno retorno do mesmo”, reproposto por certo pretenso defensor dos “valores da vida”, o filósofo Nietzsche, que intrometemos aqui no postal anterior, daria o seguinte. - Num mundo em que o mal é mais abundante, mais fácil de cometer e comprazer do que o bem, a quem é que mais interessa tal “retorno” ? - A resposta é óbvia: à minoria dos que já naturalmente realizam em si essa “inversão dos valores”: os sádicos e masoquistas. Quanto aos mais, um Nietzsche teria de apelar a alguma espécie de “lei moral” kantiana, pervertida: contra a comum natureza humana, deves querer que seja assim mesmo porque... “é” assim mesmo.

O eterno retorno do mesmo não é uma possibilidade excluída, ao menos para o jovem cosmofísico Peter Lynds, que em 2006 veio por seu lado repropor a hipótese adentro do modelo do Big Bang-Big Crunch de um universo que ainda mal conhecemos, se é verdade que 90% dele é constituído por energia e matéria “escuras” como a nossa ignorância. Mas não menos está excluída a possibilidade de a velha teoria não passar de mais uma banal projecção numa “eternidade” cósmica do banal eterno retorno temporal dos mesmos tipos (biopsicológicos, sociais, culturais) em diferentes indivíduos, geração após geração.

Certo, certo é que não pode ser o mais pesado o “peso mais pesado” de Zaratustra-Nietzsche, a começar pelo “grande sim à vida”. - Quem realmente quer tanto à “vida”, não deveria querer antes que ela jamais se interrompesse, nem sequer na memória? Mas teria de esperar quintiliões de anos até que uma mesma Terra se começasse a formar de novo, até que os mesmos homens viessem a viver, esquecidos, como se fosse afinal a primeira e única vez... Mesmo que, depois, surgissem alguns “homens superiores” a lembrar isso, de que lhes valeria, se morriam e esqueciam?... Parece pois evidente que o genuíno “sim à vida” , se pode perfeitamente admitir mutações, o que deve querer é a não interrupção da continuidade duma existência que, no caso tipicamente humano, é uma existência consciente. Isto é, o marquês de Sade e qualquer sádico consequente não deveriam querer senão fazer e comprazer no mal continuadamente, sem fim; mas não desfazerem-se em erva, bolotas e porcos. Ora, existia ao tempo do marquês (e ainda hoje) uma perspectiva que parece garantiria as delícias perpétuas do sadomasoquismo: a da “eternidade” do Inferno. (A que pelo menos o masoquista não parece possa ser “condenado”, porque isso seria para ele um “lugar” de delícias, não de teológica “reprovação”! Mas, então, não querendo purgar-se no Purgatório, para onde iria?...) Esse “lugar” pode ser mais escuro que a nossa cosmológica “matéria escura”, mas a consequência lógica é clara: - quem realmente quer o mal (ou o bem), quere-o infinitamente.

Não sei se o meu leitor já reparou em que esta velha a aparentemente “bárbara” perspectiva tem pelo menos uma implicação muito estimável: - leva muito a sério e dá o máximo peso à Liberdade humana. – Quem, neste mundo, realmente quis, ou o bem, ou o mal, terá conforme quis, ou o bem ou o mal, depurados, clarificados, continuadamente, sem fim. Já lá dizia com nímia clareza o nosso Martinho de Dume aos seus rústicos suevos, no século VI: « Nam et vita aeterna et mors aeterna in arbitrio hominis posita est. Quod sibi elegerit unusquisque, hoc haberit.»

( Com efeito, tanto a vida eterna como a morte eterna dependem do arbítrio do homem. O que cada um escolher para si, é o que terá. ) – Como? diz-me o caro leitor que isso seria levar demasiado a sério a liberdade do homem, que não sabe o que quer, que não sabe querer, que talvez não tenha nenhuma vontade livre mas somente um maior ou menor desejo de libertação!... Eu diria ao leitor que tudo o que for menos do que isso tem um nome: - desresponsabilização. Pois dar-se-ia então o caso de o mal (e o bem) transcender o humano de tal maneira que escolher o mal não seria uma escolha da liberdade, mas abatimento dela? – Aceito, na medida em que a degradação não vá ao ponto da eliminação duma inerradicável liberdade e, portanto, da total desresponsabilização. (E lembro que este abatimento milita contra a existência de “penas de morte”.)

O sadeano Saint Fond e o nietzscheano Zaratustra são exemplos das possibilidades extremas a que os comuns mortais normalmente não chegam (nem sequer sonham), mas nem por isso estamos livres de não chegar lá, neste mundo ou em qualquer outro mundo possível. O anormal elucida-nos muito sobre nós outros pretensamente normais. O anormal é raro e clarificador da norma. Não pode, assim, ser o mais pesado mal. Devemos a Hannah Arendt e a Susan Neiman, aqui citadas no último postal, o terem-nos desmascarado o que mais pesa sobre nós, e de que mal damos por isso, de tão comum e tão “normal”: a debilidade e mesquinhez da nossa consciência moral... os milhões de pequenos Eischmanns ordinários que, todos juntos, podem vir a gerar e aclamar um Hitler. A desequilibrada inclinação para fazermos mais, mais facilmente e com mais gosto o mal do que o bem. Portanto, o “anormal” não seria aqui de maneira nenhuma o excepcional, mas sempre o caso extremo.

Essas mesquinhez e debilidade parecem estar profundamente radicadas na “natureza”: o menino assaltante de ninhos ou que se compraz na vivissecação de animais. Sade e Nietzsche (menos claramente, este) foram dois dos raros que, na modernidade, defenderam que o mal é pelo menos tanto um fenómeno natural como é um fenómeno moral. Neste ponto julgo que Susan Neiman, boa conhecedora e defensora de Kant, não se distanciou o suficiente dessa modernidade para se confrontar com a visão de Sade, aqui mais original que Nietzsche (quanto a este: de há muito que os homens dejam superar-se e ser como deuses, desde pelo menos... o Éden bíblico!), - a visão de uma soberana Natureza-divindade, cruel, que lança os homens na existência para destruírem e se destruírem. É a hipótese de um “Deus maligno”, que só Descartes (muito de fugida) ousou pensar. Isto quer significar uma coisa, que não pode passar não pensada, por mais que seja difícil de pensar: - que o mal transcende o humano e afecta-nos a nós como ao universo físico em que habitamos.

Considerarei esta possibilidade em breve.

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