terça-feira, julho 13, 2010

SADE CONTRA KANT

« Não nos prova a Natureza até que ponto a nossa multiplicação a incomoda? .... Não nos põe ela à prova pelos flagelos com que nos atormenta sem cessar, pelas divisões, pelas discórdias que semeia entre nós .... por essa inclinação para o assassínio que a todo o momento nos inspira? .... Assim as mortes que as nossas leis punem com tanto rigor, as mortes que nós julgamos ser o maior ultrage que é possível infligir-lhe, não só, como vedes, não lhe causam nem podem causar dano algum, como são mesmo, de algum modo, úteis a seus olhos, pois que a vemos imitá-las tão frequentemente; e é bem certo que ela o faz só porque desejaria o aniquilamento total das criaturas lançadas em jogo, a fim de gozar da faculdade que tem de lançar em jogo outras criaturas. O maior celerado da terra, o criminoso mais abominável, o mais feroz, o mais bárbaro, não é senão um instrumento das suas leis .... senão o móbil da sua vontade e o mais seguro agente dos seus caprichos .... Nunca se cometerão suficientes crimes à face da terra perante a sede ardente que a Natureza tem deles. »

Alinha por este teor o Système de la Nature que numa obra da maturidade literária (La Nouvelle Justine) o marquês de Sade põe na boca... de um Papa. Acha o marquês na “Natureza” o vazadouro conveniente das “paixões fortíssimas” e o meio de alijar a responsabilidade delas, que afinal fazia cobrar na pele dos seus semelhantes. (Mas, para o grand seigneur do Ancient Régime, podiam lá ser as prostitutas de Marselha pessoas humanas suas “semelhantes”!...)

Não interessa aqui tanto o caso particular do indivíduo Donato de Sade, aliás não sem interesse: vinte e sete anos preso sob os diferentes regimes políticos que se foram sucedendo na sua coetânea França, parecem configurar o perfil dum citoyen intratável e irredutível à sociabilidade normal do homem “por natureza” político, de que nos falava Aristóteles; sem que sequer possamos falar da associabilidade de um therion, um ser monstruoso, porque o sádico precisa de sociabilizar e insinuar-se junto das vítimas que quer maltratar. Aqui temos já um ponto interessante, a sublinhar e endossar aos defensores duma teoria naturalista do fenómeno político. Mas não é isso que me traz hoje aqui.

Vimos no postal anterior que, para o philosophe scélérat, a existência ou não existência da liberdade era, no fim de de conta, irrelevante; nem há contas finais nenhumas: as mais unânimes ou discordes decisões dos vivos têm as mesmas terminais consequências para todos – o nada da morte aniquiladora. Mas... não sabemos. E se também de apodíptica e irrefutável verdade se não sabe se há realmente liberdade, - sabe-se ao menos isto: temos duas crenças radicalmente contrárias em confronto e, portanto (livre ou não livre) a possibilidade de uma alternativa. – Uma alternativa existencialmente actualizada em pelo menos dois casos conhecidos e parentes de Sade - Gilles de Rais, no séc. XIV, e Ted Bundy, no XX -, indiciando que a pretensa “fatalidade” ou não existe ou pode ser superada. É que não se entende que a mesma necessidade (a existir) gere resultados contraditórios : o remorso e arrependimento; ou a obstinação incontrita. E fiquem desde já claros os termos da alternativa: uma decisão (mais ou menos consciente) a favor da transmissão e protecção da vida, seja esta meramente biológica, meramente restante, residual e ferida de morte neste mundo; em contra a indiferença ou a apologia da aniquilação de qualquer forma de vida.

Quanto à lei moral, é esta, kantianamente, a lei da própria razão prática e, por isso, Imanuel Kant não concebe como propriamente humana – sim diabólica – uma razão de tal maneira independente da lei moral que pudesse agir de contínuo e sustentado ânimo contra a lei moral, como se fosse um “dever”. Concedo não haver aqui por que falar em razão, mas de aí não segue a impossibilidade da intenção enquanto mera disposição: esta, por um lado, não tem de ser racional (e sucede-lhe abominar qualquer razão); depois, é tanto mais poderosamente motivado quanto, no sadismo, a violação da lei moral é imediatamente compensada com um prazer que, na conduta moral, o simples cumprimento do dever não garante à pessoa virtuosa (antes muitas vezes paga com penoso sofrimento e até o sacrifício da própria vida). Uma motivação poderosa e tanto mais facilmente acessível porque facilmente associada à “natural” agressividade do animal predador que tem de recorrer à violência para “sobreviver”. Eis o bastante para entendermos o facto da “natural” propensão humana para fazermos mais facilmente o mal do que o bem. Eis como, neste mundo, a vantagem está à partida do lado do sádico. E o terrível paradoxo da perversão é este: convém-lhe a existência de uma lei moral, o que lhe assegura o máximo de prazer na violação dela. Onde é que então o sádico (se) perde ? Julgo que em duas afirmações sem caução racional nenhuma, porém congruentes com a desresponsabilização das “paixões fortíssimas”, que sente em si próprio, e com a “sede ardente” da erupção vulcânica delas, que imputa à “Natureza”. Tais são : - que a lei moral existe e deve existir (para ser pervertida), mas apartada de qualquer justiça; e que não há nenhuma justiça triunfante neste ou nalgum outro mundo.

Compreende-se, deste ponto de vista, que Sade nunca tenha reconhecido sua a autoria da sua primeira Justine ou les Malheurs de la Vertu, cujo final viria anos depois a corrigir na Nouvelle Justine, associada a Juliette ou les Prosperités du Vice : na primeira, a vida longamente seviciada de Justine (a Justa) acaba fulminada por um raio do céu, mas cujo relâmpago ilumina a conversão subsequente da viciosa irmã Juliette, que enfim arrependida procura remissão na vida religiosa; na segunda, Justine acaba da mesma maneira, mas o raio é entendido como a cúmplice participação final duma “Natureza” maléfica, que incita a comparsaria dos torcionários a levarem o sadismo até à necrofilia. (Vemos, pois, que aquela alternativa existencial atrás referida não deixou de ser literariamente contemplada na obra de Sade.)

Que não há nenhuma justiça triunfante em nenhum mundo possível, é uma crença que nos confronta com o outro postulado essencial à razão prática kantiana: o da imortalidade da alma humana. O ódio à vida levou o marquês a imaginar-se uma final auto-destruição total da “Natureza”, menos congruente com a sua apologia do “amor” pela crueldade, mais com algum fundo desejo duma final absolução de tudo no “nada”. Mas, também aqui, há outras alternativas. A kantiana parece a mais digna de ser crida por um ser racional; porém, é precisamente aqui que a objecção sadeana cobra toda a sua dura pertinência: como dar conta, num ser “racional”, não somente duma inclinação “natural” para um “amor de si” (já incapaz de compreender um indivíduo que assume o desejo da auto-extinção de si e de tudo o mais), mas a vontade feita e satisfeita de fazer sofrer todos os seres vivos o mais possível, por todos os meios? Julgo que fica neste ponto transparente a insuficiência duma ética cuja “lei moral” se deixou ficar “nos limites da simples razão” humana, limites que só na especulação abstracta se pode pretender fixar, mas que na concreta existência das pessoas são limites muito mais difusos do que o grande filósofo alemão gostaria. Ora, neste campo, a insuficiência não é nenhum defeito apenas conceptual, corrigível com aprofundamentos ou correcções da teoria : significa uma incapacidade prática para a afirmação existencial do valor. E é por isso que não vejo nenhuma vantagem, mas perigo mortal, na substituta versão que para consumo filosófico deu Kant da Lei das leis, como ele próprio lhe chamava: - Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Nestes termos, sim, temos clara a razão maior humana e única suficiente.

Há um traço comum à primeira e segunda versões da história de Justine, que não é demasia sublinhar e decisivamente importa não esquecer: apesar de submetida a todos os sofrimentos e maus tratos imagináveis pela imaginação sádica, a Justa, embora sofrendo também essa tentação, nunca jamais é levada a fazer o mal ou a comprazer-se com ele de qualquer modo, e permanece até ao fim “escrava da Divindade no coração”. Isto quando outras personagens de boa índole são levadas a fazê-lo, o que é o cúmulo do prazer para esse prototípico ministro do mal que Sade personificou na figura a que chamou Saint Fond (que soa: Sem Fundo). Como se houvesse no fundo um limite irredutível, intratável, invencível: e há, de facto, na maravilhosa e terrível experiência humana neste mundo, casos de pessoas que, submetidas aos maiores suplícios da tirania sádica, não se submeteram nem traíram. Como se, mesmo neste mundo, fosse possível uma Justiça invicta, que obrigasse o sadismo desesperado a jogar na morte – e a acabar na necrofilia amarrado a um cadáver. Mas, nestes casos, não sa dará e dirá então que a simples lei moral kantiana é afinal suficiente contra Sade e o sadismo? Parece-me clara a resposta: - Sim, se a imortalidade da alma é mais que um “postulado”, e Deus mais que uma ideia da “simples razão”.

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