sexta-feira, agosto 13, 2010

O MAL RADICAL

Um mundo em que, na perspectiva naturalista, o sadismo e o masoquismo (e a pedofilia e a necrofilia e a bestialidade...) fossem necessários para alguma concebível vantagem adaptativa da espécie, ou ao menos como subprodutos anómalos e indesejáveis de normais capacidades de agressão e sofrimento, - tal mundo seria, a meu ver, incompatível com o “muito boa” com que Deus avaliou a Criação, segundo o relato bíblico. Mas já sabemos que prazer e sofrimento não podem ser todo o bem e todo o mal que afectam a existência humana; e nunca deve esquecer-se que a lei moral kantiana – a norma do bem – é para ser querida independentemente de qualquer prazer ou sofrimento que traga o dever de a cumprir. Também ficou rejeitada aqui, na última semana, a hipótese de um Deus cruel sadeano, que ilimitadamente se comprazesse com o sofrimento humano: tal entidade, a existir, não pode ser propriamente divina. E também já vimos que, de acordo com Kant, é no mau uso da liberdade, motivada contra a lei moral, que deveria encontrar-se o princípio radical do mal na acção humana. Nesta parte, estou menos de acordo com Kant. De facto, se a máxima de uma tal acção malevolente fosse – “Age de maneira a usares unicamente e sempre as pessoas dos outros unicamente como meios e nunca como fins”-, tais “meios”, ou careceriam de sentido racional (não há “meios” sem “fins”), ou seriam meios sempre do interesse final de um agente particular. (Um caso típico, por exemplo, seria o sujeito que usasse o seu corpo apenas como meio para um fim inteiramente alheio à conservação natural desse corpo, com intenção suicida.) Por isso Kant considerava – se nos referirmos apenas à acção humana – que o mal radical estaria originariamente num desordenado “amor de si”, e que o mais que fosse além disto era propriamente malignidade diabólica, não humana. E isto é compreensível e aceitável nos termos e limites, sempre bem definidos e moderados, do pensamento do grande filósofo alemão. Infelizmente, é o próprio suicídio um dos casos que fazem pensar que, em sua concreção existencial, no humano, tais limites kantianos são muito elusivos e difusos; e que o “amor de si” não é o mal mais radical que pode afectar o uso da liberdade humana. –

O suicida sofre de tal maneira que quer pôr um termo ao seu sofrimento. (Suponho mesmo que o quis de lúcida e livre vontade manifestada previamente.) Mas não quer isto apenas. Se o faz, ele espera não vir a sofrer ainda mais noutra qualquer possível existência, reencarnada ou desencarnada. Quer e espera um termo final, pelo menos um fim que exclua qualquer igual ou maior sofrimento possível. De tal modo que não repugna admitir que a maior parte ou todos os suicidas nestas circunstâncias (intencionadas e ocasionadas por um insuportável sofrimento) acreditam num termo final que, ou conduz a um menor sofrimento, ou é absoluto e, portanto, que (o) nada se segue desse acto. Mas esta crença niilista pode não afectar apenas as consequências do acto suicida, que seria então caso único de um acto da vontade com resultados mas sem quaisquer consequências (no tempo, ou fora do tempo na eternidade) : o suicida pode considerar o passado da sua existência totalmente desastroso, sem nenhum sentido nem valor. E assim o nada abrangeria todas as partes temporais da existância: passado, presente e futuro. ( O mesmo com o homicida, relativamente aos outros: ele espera e deve querer que nada das pessoa que matou sobreviva capaz de lhe tornar a existência intolerável, neste mundo ou em qualquer outro.) Dir-se-ia provavelmente que o suicídio é um indicador existencial claro de o que faz um “amor de si” ou interesse egoísta totalmente desordenado da lei moral kantiana. Eu diria que o só interesse egoísta não pode ir até ao ponto da extinção de si ( se o sofrimento fosse minorado ou desaparecesse, seria de esperar desaparecesse a intenção) e que, sob este ponto de vista, haveria uma diferença decisiva relativamente ao homicida; que o suicida, enquanto quer apenas escapar ao sofrimento, age de acordo com uma natureza que o predispõe a procurar o prazer e a evitar a dor e, portanto, enquanto tal, o seu acto não seria ostensivamente contrário à lei moral, mas apenas indiferente; e mais diria que é, pois, na vontade de aniquilação de si ou de outrem, e (idealmente) de qualquer lei natural ou moral impeditivas – que transparece o mal.

Há infelizmente um outro caso existencial em que parece ainda mais transparente. O suicida ainda afirma uma vontade e ainda tem uma esperança, mesmo se inteiramente negativas; e estas, como que restritas apenas à pessoa individual, são ainda uma afirmação da sua condição de pessoa – a pessoalidade – e de um temperamento pessoal (ou personalidade). Mas, se se dá termos o suicida e homicida juntos numa mesma pessoa ? Parece óbvio que há aqui uma maior vontade de aniquilação. (Exclui-se os que ainda acreditam ir para algum “paraíso” como “mártires” de guerras “santas”...)

E ainda outro caso: - se a vontade de aniquilação já parece que anulou a vontade própria e se tornou como impessoal, mas o sofrimento não se sobrepõe à razão advertida da possibilidade de não anulação total da existência, que fará o desgostoso e aborrecido da vida? Não pode querer nada e não pode deixar de querer nada. Tal é o tédio, que não conclui necessariamente no sucídio ostensivo.

Compreende-se que a vontade sujeita ao nada pode pensar que não há nenhuma vontade própria e livre. E é possível que na sua fundamental indiferença alegue uma “fatalidade” e o “fatalismo” das circunstâncias que a levam a matar outros e a deixar-se matar a si a “sangue frio” (a impessoalidade parece ter anulado a consciência moral e, como disse, o sentimento não se sobrepôs à capacidade de planeamento e análise, que pode ficar aumentada).

Para a vontade assim aniquilada e aniquiladora, a lei moral é alheia e indiferente. Sobre ela pode triunfar o “mecanismo da Natureza inteira” (na expressão de Kant), incluídos todos os atavismos da hereditariedade e da sociedade, que podem mascarar mais ou menos o sentimento de estranheza a tudo e de desgosto de tudo, consoante a maior ou menor consciência dos indivíduos afectados (alguns dos quais se pretendem e, de facto, aparentam extraordinária “lucidez”). Contudo, como a vontade e a liberdade (se realmente existe) não podem ser de todo anuladas, a fórmula mais precisa e realista deste tédio será: - não quer nada e não pode deixar de querer (uma fórmula que nos soa mais familiar...). Mas, de querer o quê? Nada. E o que dá este nada confrontado com uma lei moral a que é profundamente estranho, mas que não pode anular? Nada.

É nesta vontade (quase) anulada e praticamente anuladora, sem interesse nenhum por lei moral alguma, que me parece estar o “mal radical”.

Teremos de prospectar mais fundo o terreno nutriente de tal tal raíz.



[ É fácil de ver que, no caso, os atavismos sociais, enquanto complexo de normas controladoras da manutenção da existência do grupo, quanto mais fortes forem, mais conseguirão bloquear ou corrigir as “circunstâncias” eventualmente favoráveis à irrupção (habitualmente “súbita”) duma vontade aniquiladora que, também habitualmente, tendemos a associar a indivíduos “psicopatas”. Só assim o “mecanismo da Natureza” triunfaria efectivamente (no sentido da auto-conservação dos indivíduos e do grupo). Mas, se as normas sociais são débeis e se rompem... O leitor português da sociedade portuguesa de hoje vai sabendo o que acontece. ]

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