sexta-feira, agosto 06, 2010

UM DEUS CRUEL ?

« Onde estava Deus, onde estava o projectista inteligente do universo quando os nazis zelosos transformaram em fumo 1,5 milhões de crianças? Onde estava o ser todo poderoso, omnisciente e perfeitamente bom cuja essência mesma se opõe radicalmente ao mal, enquanto milhões de crianças morriam à fome às mãos de Estaline .... A existência do mal é a ameaça mais fundamental ao conceito ocidental tradicional de um Deus sumamente bom e todo-poderoso. »

É assim que Andrea Weisberg abre o capítulo que dedica a “O Argumento do Mal”, contribuição sua para a colectânea coordenada e apresentada por Michael Martin, sob título Um Mundo Sem Deus. Ensaios Sobre o Ateísmo, traduzida pelo filósofo português Desidério Murcho, e publicada há poucos meses em Lisboa. Lá encontrará o leitor interessado uma versão mais vulgar do argumento a que me referi no postal anteirior.

Às vezes pergunto-me se o “argumento do mal” é moralmente bom: - evoca-se o imenso sofrimento de humanos e animais para nos convocar ao dever urgente de combater o mal? Não; está-se a usar o sofrimento para combater... um “conceito” ou uma crença. Será que são estes conceito e crença de algum modo os responsáveis por tal sofrimento? E se, por outro lado, o “argumento do mal”, em qualquer uma das suas versões, não é demonstrativo mas apenas “indiciário” ou retoricamente sugestivo (que é o que, de facto, se apura), a tentativa de minar essa crença é uma contribuição válida para robustecer o combate ao mal ? Anulado esse “conceito tradicional”, tal combate seria mais eficaz?...

Também às vezes parece-me que os argumentadores, no cenário do Teatro humano deste mundo se fixam as vistas apenas no ponto em que há vítimas inocentes da violência que sofrem, e depois imaginam-se Deus como uma espécie de super-homem Clarke Kent assistindo distanciado na plateia, sem intervir... Talvez fosse melhor partirem para o “argumento” mais informados do “conceito ocidental tradicional”, que inclui um Deus humanado, traído, ofendido e crucificado.

Psicologicamente, a ênfase no sofrimento como um mal pode encobrir inexaminado preconceito e desapercebida ansiedade. - Procede-se por abstrair e absolutizar certa fracção temporal duma existência temporal limitada, e ignoram-se ostensivamente possíveis existências sucessivamente limitadas, existências temporalmente ilimitadas, ou existências eternas. (Típicamente, os argumentadores ignoram o sofrimento infernal ou a beatitude celeste.) Parece-me, pois, um argumento significativo da insofrida intolerância do hedonista, que julga a “vida” coisa de dois dias e que se dá ansiosa pressa de a gozar o mais possível. Para este, o sofrimento imerecido terminado na morte será sempre um escândalo: coisa sem sentido e sem esperança.

Responderei primeiro ao desafio que o sr. marquês de Sade aqui nos deixou na passada semana, e que também não deixa de ser endereçado ao teísta.

(1) Um Deus cruel poderia talvez ser um criador, mas não um Deus soberano, independente e livre relativamente às suas criaturas. Dependeria delas como o senhor sádico depende dos seus escravos. Ora, se não é inteiramente livre relativamente à sua criação, não é propriamente digno de ser considerado Deus.

(2) Se há criação quando há uma dependência ontológica unilateral e exclusiva das criaturas relativamente ao seu Criador, mas nunca o inverso, então um Deus cruel que depende da existência das criaturas, não só não pode ser Deus (1) como não poderia ser criador. Mas, se há criação...

(3) A existência de seres que se comprazem com sofrimentos infligidos sobre si por outros, é incompatível com um Deus cruel, que excluiria o masoquismo. Ora, o masoquismo é um facto; e se é pensável assim um Deus mais cruel, essoutro que seria relativamente menos cruel não é digno de ser considerado Deus.

(4) A existência de um único genuíno bem (no nosso sentido normal de bondade) seria incompatível com um Deus cruel, omnisciente e omnipotente. Mas a soma de males (no nosso normal, não sádico, sentido de maldade) seria de esperar muito maior; e a quantidade, variedade e grandeza dos bens que achamos na Criação seriam, de facto, males.

(5) A existência de um único genuíno bem poderia sugerir a existência de um Deus bom (ainda que menos poderoso), que limitaria o poder desse Deus cruel. Ora, dois deuses com poderes reciprocamente mais ou menos limitados, são indignos de serem considerados propriamente Deus, soberano ilimitado.

Julgo que ao ateu argumentador do “argumento do mal” interessará meditar um pouco no (4) supra. Mas, se insiste em que a soma de males é desproporcionadamente maior do que a dos prazeres, alegrias e toda a espécie de bondade feliz que pode viver-se já neste mundo, eu perguntaria: - se não há nenhum Deus, e a presença dos males é tão desproporcionadamente maior, que razão suficiente teríamos para pensar que é melhor viver que não viver, e qual razão moral eficiente para os contariar e fazer o bem ?

Quanto à pergunta do sr. Weisberg, a melhor e mais directa resposta já foi dada aqui neste blogue. Eis aqui outra tão boa, do judeu belga Albert Frank-Duquesne, que esteve internado em 1941 no campo de concentração nazi de Breendonk:

http://www.sombreval.com/docs/Via_Crucis.pdf

Se o leitor não lê francês ou não tem pachorra para ler livros (o prólogo deste é mais que suficiente resposta), então respondo eu. Onde estava Deus ? – Estava onde sempre está: no mundo feito por Ele, satisfazendo ao prometido no Sermão da Montanha; no mundo desfeito por nós, crucificado por amor dos homens, e Salvador de todos os homens crucificados por amor d’Ele.

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