segunda-feira, julho 31, 2006

Seres humanos, morte, maquinações e passividade (a propósito do Líbano)

Estou-me nas tintas para quem tem razão! (Nenhum deles tem, claro!) Desprezo as causas nacionais, as razões de Estado, a necessidade estratégica da acção bélica, o prestígio dos exércitos e dos governos. Para lá destes e por causa destes, morrem pessoas, fustigam-se populações. Cansam-me também os comentadores e os textos jornalísticos que "relatam" e analisam esta guerra como se de um jogo de xadrez se tratasse.
Nesta torrente de discursos políticos, diplomáticos e jornalísticos assistimos ao esvaziamento da dimensão humana do indivíduo distante, neste caso, de cada árabe que morre, que fica ferido, que perde a casa. O olhar asséptico e conformado do Ocidente esforça-se por perspectivar o Outro como um ser-que-não-é-bem-humano (que é incivilizado, que não somos nós) enquanto forma de proteger-se (moral, humana e emocionalmente) de angústias maiores. É quase como se a fenomenologia husserliana se aplicasse à política, mas reformulada: o que não está presencialmente no nosso horizonte de percepção faz parte de outro plano da realidade. A representação, neste caso, não conta como recriação convincente e apelativa da realidade. (Tristemente curiosa é a forma como as tragédias em massa nos tocam: no extermínio dos Judeus, as mortandades e o sofrimento extremo só comoveram a humanidade quando passaram a ser história e quando se tornaram filmes de Hollywood.)
Que papel pode ter o cidadão individual face à guerra fabricada, e artificialmente alimentada, no Médio Oriente? A um prazo imediato, um papel quase nulo. (Se bem que seria possível trabalhar-se para prevenir a longo prazo guerras destas.) Os media têm mais poder. Mas não quando em tempos de tragédia humana se centram em questões como a bola ou os divórcios e as dietas das figuras merdiáticas. (Era apenas risível se não fosse desumano.) Gosto cada vez mais da linha editorial interventiva do jornal inglês The Independent. Sonho ver outros jornais adoptarem posições análogas em causas que agridam os direitos humanos.

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

tenho pensado muito nesta questão... das guerras!Também nunca consigo ter um posicionamento firme no que toca "quem é que tem razão" (ninguém!!).
Penso que já por si a existência de cada ser é tão curta! Para quê tanta luta!
Somos realmente uma raça cheia de agressividade... sado-masoquista!!
As ideias são impostas à base da lei do mais forte! No nosso dia a dia é assim. O que domina é o que é mais, sempre o mais... porque tem mais ou porque é mais!
Infelizmente, acretido que a violência nunca vai terminar... Vivo bastante descrente, mas também acredito que a minha efémera existência (como a de todos!!) pode melhorar (se quisermos!) um pouco quando se tem como principal princípio a tolerância e nem é preciso amar o próximo (isso é utópico, não faz parte da nossa verdadeira natureza), apenas respeitar a vida do outro!
Por que não inventam outras alternativas ao petróleo e afins em vez de extreminarem tantas vidas e infligirem tanto sofrimento... por que não se fala nos mass media dos verdadeiros interesses da guerra?! Quem fomenta a besta?! há coisas que não consigo entender... e acho que nem vale a pena!! Hoje no Médio Oriente, amanhã logo se verá!

6:15 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

P.s: H.

6:24 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

sim, porque esta história do alá e de deus pode ser válida para os espíritos mais simples, porque decerto não temos as grandes potências e os grandes senhores motivados por tais transcendências!!! A fé deles julgo que seja outra!! (H.)

6:36 da tarde  
Blogger Xor Z said...

É só para te dizer que te mandei um mail.

9:42 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Esta guerra é tão hedionda como todas as outras. Há, contudo, uma diferença:
- A comunidade internacional assumiu uma posição passiva. Pode ser preocupante por dois motivos:
Por um lado esvazia a credibilidade de ONU, mais do que já está.
Por outro legitima outros a tomarem as mesmas atitudes em relação aos seus vizinhos incómodos.
Resta saber, ainda, como está a fervilhar o mundo árabe.
Desta vez Israel deve ter tirado mal as medidas,e a coisa está a mostrar-se mais complicada do que parecia.
Urge a presença de uma força internacional a servir de tampão. Mas que força?

1:31 da manhã  

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