domingo, outubro 05, 2008

'Os Embaixadores', de Holbein... e Violante do Céu



Depois da minha alarve tresleitura da pintura Et in Arcadia ego, de Guercino - tresleitura que foi correctamente denunciada na própria caixa de comentários do post em que o quadro foi afixado -, procuro aqui redimir-me do meu disparate, deixando duas notas sobre a famosa peça pictórica Os Embaixadores, de Holbein.

O quadro apresenta-nos o retrato de dois nobres renascentistas vestidos opulentamente e acompanhados por objectos que aludem à sua condição social, à sua riqueza e ao seu saber: livros, um alaúde, instrumentos de ciência, etc. O curioso elementos que se encontra aos seus pés introduz uma nota que perturba a pompa do conjunto: trata-se de uma figura em forma de lula, que, quando observada pela direita, se revela uma caveira. Claro que o efeito só se obtém perante o quadro ou uma boa reprodução e não na pantalha de um computador. O significado é óbvio: apesar de seres rico, sábio e jovem e de te terem coberto de honrarias, lembra-te que um dia serás pó. Memento mori.

Nas reproduções da pintura não se nota normalmente a figura de um Cristo no canto superior esquerdo, a emergir por trás da cortina. Se tomarmos o espaço para lá da cortina como o "outro mundo", a mensagem cristã veiculada não carece de muita explicação: Cristo e a fé são a única salvação.


Sobre o tema, não resisto a deixar um curioso poema da Poeta barroca Violante do Céu


Vozes de uma dama desvanecida de dentro de uma sepultura que fala a outra dama que presumida entrou em uma igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos; e se assentou junto a um túmulo que tinha este epitáfio que leu curiosamente

Ó tu, que com enganos divertida
Vives do que hás-de ser tão descuidada,
Aprende aqui lições de escarmentada,
Ostentarás acções de prevenida.

Considera que em terra convertida
Jaz aqui a beleza mais louvada,
E que tudo o da vida é pó, é nada,
E que menos que nada a tua vida.

Considera que a morte rigorosa
Não respeita beleza nem juízo
E que, sendo tão certa, é duvidosa.

Admite deste túmulo o aviso
E vive do teu fim mais cuidadosa,
Pois sabes que o teu fim é tão preciso.


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