sábado, janeiro 17, 2009

DE LICÍNIO A LUCINO


« A resposta que ele deu a certo pró-cônsul foi ao mesmo tempo elevada e mordaz. Era este tal um dos que por aí agora se depilam os pelos das pernas e do resto do corpo. Uma vez, um cínico, de cima duma pedra, clamava publicamente contra os seus costumes infames. O pró-consul ressentiu-se, mandou prender o cínico e propunha-se açoitá-lo ou exilá-lo. Mas Demonax, que passava na ocasião por ali, pediu-lhe que se amerceasse do infeliz, explicando que o ser publicamente desbocado e atrevido era um privilégio tradicional da escola dos cínicos. – Está bem, desta vez perdoo-lhe, por causa de ti. Mas, se ele recomeçar com insolências, que pena é que achas que ele merece? - Depila-o! »

Noutra ocasião, o orador Favorino, sabendo que Demonax desfazia na sua retórica pseudo-filosófica, foi procurá-lo e perguntou-lhe qual era a escola filosófica que ele seguia: «- Mas quem é que te disse que eu sou filósofo? » – respondeu o cão defensor dos cínicos, voltando-lhe as costas, rindo alto. Favorino foi atrás dele, insistindo: - «Do que é que te ris? – Rio de tu quereres diferençar os filósofos pele barba, tu, que não tens nenhuma! »

Bem, disse no meu último que o assunto pedia mais que cabelos e barbas, mas Luciano de Samossata insiste. Estas preocupações com “a imagem” são apenas um mínimo pormenor revelador da extraordinária actualidade deste retor helenista do século II d. C. Mas o leitor realista talvez me responda que é antes perenidade, não “actualidade”, querendo dizer: - "Desde quando é que os homens (mais disfarçada, não menos interessadamente que as mulheres) deixaram de se preocupar com a imagem?..." Então se eu, ex abrupto, lhe ripostar assim: - Depois de terem começado a preocupar-se mais com a Imagem de Deus -, teríamos uma resposta que nos tira logo das questões de barbearia ? Talvez que não, nem do riso do leitor “realista”: - Ora, ora, isso é um assunto com barbas!... Pois é, e venerandas.

Lembremos o transcrito parágrafo final de O Cínico: uma vez mais, numa tradição que remonta aos fundadores Antístenes e Diógenes, os que levavam uma vida de cão à margem da normal vida de sociedade, não faziam por menos: tinham como imagem um filho de Zeus, que, desde a primeira infância, se esgotara pelo mundo em aventurosos perigos e violências, sem nunca ter conseguido voltar (ao contrário de Ulisses) à sua terra natal. O satirista Luciano exagera: não seria apenas com Héracles; sugere que as desconformes pretensões dos cínicos iam a ponto de se trabalharem em si esculturas dos próprios deuses… Sobre vácua, coisa supinamente risível ! E o nosso sírio riu ao longo de toda a sua obra, não só dos homens como dos deuses.

Este Licínio-Lucino-Lúcio ou Luciano homónimos, não há dúvida que se nos apresenta um modernaço, e não sem razão foi comparado a Voltaire. Nos Diálogos dos Deuses, como no Zeus Refutado, ri-se dos deuses, que são impotentes para moderar ou impedir as loucas paixões dos homens, acabando enredados e desfeiteados pelas sofísticas argumentações dos filósofos epicuristas e cépticos. Por outro lado, na obra O Banquete, junta estes filósofos, mais um estóico e um cínico numa festa de casamento, oferecida por um mecenas, e prega-lhes por atacado uma das mais contundentes e divertidas sátiras, bem dignas dos seus modelos literários Menipo e Aristófanes. - Depois de, à vez, cada um ter botado discurso, qual deles o mais patusco, depois do cínico já ter saltado para cima da mesa, ultrajar a noiva, e envolver-se em cenas de pugilato com um criado anão, o clímax final é introduzido quando, todos já bem comidos e bebidos, o filósofo estóico faz reparo de ofendido por os criados terem mais bem sortido o prato do colega céptico, a seu lado na mesa…

- Isso é uma falsa impressão tua – diz-lhe o céptico.
- Não me conseguirás demonstrá-lo – lança-lhe o estóico… E vá de trocar os respectivos pratos.
- E tu devias resistir e abster-te de opiniões e gestos precipitados – torna-lhe o céptico, citando o famoso sustine et abstine do grande Epicteto. E tenta retomar o prato. Mas o outro, sem mais argumentos, vem logo às vias de facto e lança-lhe o cozido à cara. Engolfinham-se os dois, os convidados, os noivos, os criados… e a festa termina num sangrento arraial de pancadaria, com o cínico ( um chamado Alcidamas) a varrer a mesa com o inseparável varapau e a acertar num candelabro, cujos lumes se apagam ao cair com fragor sobre a mesa. O reboliço prossegue na escuridão até que acode a vizinhança, com luzes e autoridade para repor a ordem cívica: e o Alcidamas é achado no chão, a cobrir com o manto de filósofo uma bonita criada…

Quando falei na modernidade de Luciano de Samossata (da moderna Samsat, no Curdistão turco, à beira do Eufrates, afundada não há muitos anos para construção duma barragem com o nome do ditador Ataturk), falava da modernidade iluminista e lucina de Voltaire, capaz de se rir de tudo à la légère e abrir as comportas a todos os iluminados ditadores; não me referia à nossa “pós-modernidade” afogada e deprimida no fundo de sofisticadas barragens, já incapaz de rir com as frioleiras ingénuas e demasiado previsíveis do retórico Luciano. Este, não obstante, permanece-nos próximo, e a sua relação de amor-ódio com a filosofia é bem interessante e digna de se estudar. Como já disse, os cínicos da sua época mereceram-lhe especial curiosidade, mas poucos o convenceram. É possível que em O Cínico tenha pretendido compor um tipo ideal, de resto um tanto frouxo e convencional. Foi pena ter-se perdido a obra que dedicou a Sóstrato da Beócia….

« Ao nosso tempo coube ter o seu lote de homens dignos de reputação e memória veneráveis, produzindo um herói duma força acima da natureza, que era um filósofo completo. Falo do beócio Sóstrato, a quem os gregos chamaram Héracles, convencidos de que se tratava do próprio semideus; mas também o filósofo Demonax. Eu vi-os, a ambos admirei, pude até viver bastante tempo com o segundo. Acerca de Sóstrato, já escrevi noutra ocasião; contei do tamanho da sua estatura, da sua prodigiosa força física, de como dormia ao ar livre na montanha do Parnasso, sobre a erva, vivendo uma vida selvagem; contei também das suas acções, em tudo conformes com o nome que tinha: como ele livrou os viandantes dos celerados que os assaltavam, como abriu caminhos dantes impérvios, e construiu pontes em sítios intransitáveis e perigosos. É justo que fale agora de Demonax… »

“Conformes com o nome que tinha” Sóstrato, que deriva do verbo sózô: estar e conservar-se abrigado; estar são e salvo. Com o mesmo verbo estão associados os nomes sostrón (a recompensa dada a quem salva dum perigo; a oferenda dada em sacrifício a um deus); sotêr (salvador) e sotêría (salvação, preservação, segurança). - O mesmo verbo e nomes que compõem o de Sócrates… E já agora, a respeito de nomes, esse ferrabraz do Alcidamas que fala com o falo à noiva em plena boda, mais o coro dos filósofos que peroram num linguajar ridículo e assaltam com violenta sem-cerimónia cerimoniosas ocasiões sociais – “estragando a festa” -, tinha ele próprio um nome parente do de Alcides – que era o nome humano de Héracles…

Citei a começar e venho a terminar com citações da obra que Luciano dedicou a Demonax. É justo que agora ponha ponto final a este desconforme postal dedicado a tão desconformes personagens, e atravesse com elas para o próximo.

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