quinta-feira, outubro 28, 2010

VIDAS DE CÃO



Já vimos aqui no Tonel um Cão anónimo dar uma lição a Licínio, não só sobre cabelos e barbas, também sobre as vantagens de viver apartado da vida urbana e só vestido “duma veste de que os deuses se honram”, querendo dizer: nu, como a madre Natureza o deu ao mundo. Quem no-lo contava era o retor romano Luciano de Samossata, que também conheceu outros dois renomados “cínicos” – Demonax e Peregrino. Ambos estes teriam sido iniciados na vida canina por um filósofo que demorava no Egipto, chamado Agatóbolo. Antes disso, como também já lembrei, Peregrino teria vivido associado com os cristãos, na Palestina. O erudito advogado romano Aulo Gélio conta que se avistou com Peregrino nas cercanias de Atenas, onde o filósofo vivia pobremente numa choupana. Estávamos nos finais do século II depois de Cristo.

Como se sabe, o imperador Juliano, uns cinquenta anos depois do seu antecessor Constantino se ter ligado ao Cristianismo, tentou na última metade do séc. IV repor em plena e pública forma as homenagens imperiais aos deuses do paganismo. Bom conhecedor da mitologia e da filosofia clássicas, encontramos na obra escrita de Juliano, para além de iracundas diatribes contra os “ímpios Galileus”, outras críticas não menos acerbas contra os “cínicos mal educados”. É o mesmo tipo de crítica que já o referido Luciano lançara sobre os que lhe pareciam falsos filósofos, que se aproveitavam do estilo de vida canina para viverem da vagabundagem e da pedinchice. Nem escapavam ao imperador os que se dedicavam profissionalmente ao ensino da retórica: num discurso Ao Cínico Heráclio, critica uma peça teatral de que este era autor, mal escrita, pior representada, insuportável de ver, impossível de aplaudir. Pois não é que o nosso autor, “mal educado”, se tinha atrevido a dizer mal dos deuses?... E vá o erudito Juliano de lhe escrever a ensinar-lhe mitologia e estilística dos géneros literários. Ora, em certo passo deste escrito, o assumido restaurador antiquário fala de bandos de falsos cínicos que vagabundeavam de lugar em lugar, desassossegando os rústicos – compara-os aos giróvagos missionários da “seita dos Galileus” e chama-os de apotaktistes, “renunciantes”...

O nosso Diógenes tinha-se como sem cidade (apolis), sem casa (aoikos), sem pátria (esterémenos), pedinte (ptochós) e vagabundo (planetes), coisas que o sofisticado retor e o selecto imperador dificilmente suportavam de ver e cheirar. Ao que parece, estes cães fedorentos terão sobrevivido até finais do séc. V, mas, depois de Peregrino, a maioria deles deixou de si pouco mais que o nome; excepção, na primeira metade deste século, terá sido um chamado Máximo, que praticou a vida de cão antes da de cristão, e que depois da sua chegada a Constantinopla se comportou de tal maneira que o patriarca S. Gregório de Nazianzo lhe dedicou dois panegíricos. O último de que há notícia terá sido um tal Salústio de Emesa, de quem só se sabe que levou vida ascética e começou como discípulo do neoplatónico Isidoro de Alexandria. Em 529, por ordem do imperador Justiniano, fechava-se a escola de Atenas, fechando (temporariamente...) o ciclo da filosofia pagã greco-latina.

Acontece que, pelo séc. VI, entrava por uma das portas da cidade de Emesa uma estranha personagem. Vinha sozinho, vestido como um monge, mas sem o cinto, que tirara para prender e arrastar atrás de si um... cão morto. Logo a garotada que por ali vadeava o rodeou e troçou: - “Eia, um monge maluco!”


« No dia seguinte, que era domingo, pegou numa quantidade de nozes, entrou na igreja ao começar da liturgia, e pôs-se a atirar nozes aos presentes e a apagar as velas. Quando em tumulto procuraram imobilizá-lo, subiu ao púlpito e de lá ainda alvejava as mulheres com as nozes. Com grande arruído expulsaram-no da igreja e, de caminho, ia voltando de pernas para o ar as mesas com bolos e doçaria dos vendedores, que se atiraram a ele e quase o mataram. » Assim foi a entrada em Emesa do monge Simeão – o “louco por amor de Cristo” (salos dia Chríston) -, tal como no-la descreve a biografia que dele fez o bispo Leôncio de Neápolis ( actual Limassol, Chipre), cerca de um século depois. E, depois das nozes, seguem-se quilos de tremoços, que o santo homem, empregado em vendê-las, antes as “comia como um urso”; e seguem-se os mesmos efeitos de intestinal ventosidade que era uma das marcas do nosso Diógenes e do seu discípulo Crates. E quando, a seguir à ruidosa flatulência, urgia expelir algo de mais sólido, não tinha dúvidas de acocorar e aliviar-se em público, onde quer que estivesse. Nem lhe faltou a mesma saborosa alternativa à diogénica dieta: carne crua. Abunda minuciosa e longamente nestas anedotas a pitoresca narrativa do bispo, um extraordinário documento da entrelaçada síntese do ascetismo canino e do cristão. S. Simeão, ainda hoje venerado no santoral das igrejas orientais, havia nascido de famílias ricas da Edessa síria, e tinha sido monge por espaço de vinte e nove anos no deserto da Judeia. Dirigiu-se depois até Jerusalém, para reaparecer em Emesa deste jeito, divinamente seguro e confiado que todo o bem que pudesse fazer – e fez - na cidade, até à sua morte, não lhe seria imputado pela sociedade ao seu juízo e vontade meramente humanos. E, de facto, só uma das pessoas que lá habitavam sabia da sua vera e lúcida identidade.

O tema da santidade escondida numa loucura fingida e oposta à comédia social que se julga séria, não era inédito: inspirando-se na letra do 4, 10 da primeira carta de S. Paulo Aos Coríntios, já aparece nas vidas dos Padres do Deserto e não tem falta de exemplos na hagiografia do final da Antiguidade, aliás com pelo menos um precedente na Emesa síria: Santo Aleixo (romano de nascimento), para não falar de um outro (e mais famoso) Simeão, com seus companheiros e continuadores estilitas. É toda uma tradição cultural que viria a condicionar a ideia medieval da loucura como uma “doença sagrada” e que se reflecte ainda no Elogio que dela fez, nos princípios do séc. XVI, o erudito humanista e um dos mais radiantes luminares da philosophia Christi, que foi Erasmo de Roterdão. No lado oriental da cristandade europeia, é uma tradição que perdurou viva até ao séc. XX nas extraordinárias figuras dos chamados yurodivye russos.

No caso do nosso Simeão, cumpre dizer que a sua entrada com o cão morto atrás não tem que significar a morte do cinicismo pagão, revivido na ascética cristã ; como já foi notado por alguns, pode significar Cerbero, o cão guardador da entrada do Hades, na mitologia helénica : o santo como vencedor do guardião dos infernos, ao entrar nos infernos da cidade. Já quanto ao que dele se conta logo a seguir na igreja, não tem sido tão comentado... Sublinhemos apenas que muito honra ao sr. bispo de Neápolis não o ter omitido.

Tenho assim cumprida a promessa feita aqui ao meu leitor de farejar até onde nos levaria o rasto evanescente do Cinicismo na Antiguidade final.

Uma palavra agora, e breve, sobre o raro ícone apresentado supra. É uma representação do popular S. Cristóvão, cujo nome e naturalidade se ignoram ( Christóphoros, quer dizer “o portador de Cristo”). Teria nascido em remota região do norte de África, nos confins do mundo conhecido, em terras que se acreditava habitadas por canibais, ciclopes, ciápodes, hermafroditas e... cinocéfalos - homens com cabeça de cão. O imperador Diocleciano, em campanha militar na região (301-302), de lá o trouxe como escravo para Antioquia, onde foi baptizado e depois teria morrido martirizado, a 9 de Julho de 308. Data de 452 a primeira igreja que lhe foi dedicada, na Bitínia. Uma legenda irlandesa credita-lhe a cinocefalia nata e conta que, a pedido de Cristóvão, foi um anjo de Deus que lhe soltou a língua (sem lhe alterar a fisionomia) para a fala humana e a pregação do Evangelho divino. Outra legenda, popular entre finlandeses e russos, lê diferentemente: a fisionomia era de seu natural humana, e muito atraente às mulheres; depois de baptizado, pediu a Deus que lhe desse uma cara de feição a não ser mais tentado nem incomodado... Na famosa Legenda Áurea , compilação medieval do bispo genovês Tiago de Voragine, o leitor interessado encontrará um relato dos trabalhos deste Cristóvão, que era de altura gigantesca e forças hercúleas, incluindo o célebre encargo (que lhe foi ordenado por um eremita) de carregar com pessoas comuns de uma margem para a outra de certo rio de torrenciais, tormentosas águas... “ em que muitos se têm perdido e morrido ”. Lá lhe apareceu uma criança a solicitar-lhe travessia. Parecia fácil empresa ao gigante passar o menino ao ombro. Mas o menino era Jesus, e “pesou-lhe como se levasse o mundo às costas”...

Não preciso lembrar ao leitor que Hércules ou Héracles era o sempre reivindicado herói patrono dos filósofos que tinham como cabeça de escola um que a si mesmo se chamava Cão. Mas não será inoportuna a sugestão de que neste cinocéfalo cristão, como no louco Simeão, temos duas figuras daquele therion monstruoso que tanto assustava o polido e político Aristóteles...


[ O leitor de inglês interessado tem aqui a vida de Simeão, precedida de um estudo que não deixa de comparar a vida do cão com a do cristão. Desde os finais dos anos 70 do XX, há historiadores que morderam o filão, e alguns levaram as comparações até à pessoa e comportamento de Jesus.
O leitor de português não deixará de se interessar pela maravilhosa versão de Eça de Queirós, no seu conto S. Cristóvão, unanimemente considerado pelos especialistas como pérola acabada da excelência literária do seu autor. O nosso polido e político cônsul parisiense, quando a morte o surpreendeu, dedicava-se a escrever Lendas de Santos... ]

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