sábado, março 14, 2009

NA GAIOLA DE SKINNER ( II )


Em 1961, três meses após o início em Jerusalém do julgamento do nazi Adolf Eichmann, iniciava-se na universidade norte-americana de Yale uma série de experiências de psicologia aplicada a supostamente investigar a influência da memória e da atenção nos processos de aprendizagem. Através de anúncios nos jornais, foram recrutados e remunerados 40 indivíduos, homens entre os 20 e os 50 anos, de diferentes profissões e níveis de instrução. A cada um deles dizia-se que ia fazer de “instrutor”. Cada um ficava sentado numa sala diante dum painel de instrumentação eléctrica, ligada por fios a uma sala contígua, onde estava sentado um outro indivíduo que lhe diziam ia fazer de “aprendiz”. O suposto instrutor via ligar alguns dos fios a eléctrodos presos no pulso do “aprendiz”; outros estavam ligados a microfones e altifalantes com os quais se estabeleceria a comunicação entre as salas sem contacto visual directo. Diante do “instrutor”, o painel de instrumentos continha um mostrador que indicava 30 diferentes níveis de voltagem eléctrica, entre os 15 e os 450 volts. Os níveis mais baixos tinham a indicação”choque ligeiro”; os níveis 25-28 a indicação “choque de extrema intensidade”; os dois últimos eram notados com um enigmático “XXX”. Ao dito “instrutor” era dado um bloco onde estavam listados diferentes grupos de pares de palavras; de cada vez, ele tinha de começar por ler ao “aprendiz” um certo grupo; depois, enunciava uma palavra desse grupo e o “aprendiz” deveria responder acertadamente a palavra correspondente do par. Se não acertasse, o “instrutor” devia accionar os interruptores no gerador de electrochoques, começando pelo nível mais baixo e premindo depois os sucessivos interruptores das voltagens mais fortes à medida dos sucessivos erros do “aprendiz”.

Acontece que o que fazia de “aprendiz” era um sujeito (de cerca de quarenta anos) conhecido e cúmplice do experimentador. A partir dos 150 V (marcado “choque moderado”), accionava um gravador onde estavam gravadas vozes de queixa sucessivamente cada vez mais intensa e aflita; nos níveis mais elevados dos falsos electrochoques havia alarmes de perturbação cardíaca; o cúmplice fazia ouvir punhadas na mesa e depois na parede voltada para o verdadeiro sujeito experimental (SE), o que fazia de “instrutor”. E o que de facto se pretendia testar era até que ponto indivíduos vulgares eram capazes de obedecer às instruções de uma autoridade socialmente prestigiada. Quando o SE manifestava algum escrúpulo de premir os botões e se voltava para o experimentador, este incitava-o em diferentes graus, desde o - “Prossiga, por favor” - até ao - “Não temos outra opção senão continuar. A experiência deve ir até ao fim. Continue!” -. A experiência terminava quando: o SE recusava-se a continuar a premir o botão, mesmo depois de incitado; ou depois de premir três vezes o botão da mais alta voltagem (450 V). No final, os SE eram informados de tudo o que se tinha passado, e dava-se-lhes um questionário de resposta facultativa sobre o grau de satisfação que sentiam em ter participado.

Quem ideou e conduziu a experiência, célebre nos anais da Psicologia, foi o psicólogo Stanley Milgram. Teve este também a ideia de, antes de a levar a cabo, fazer um pequeno inquérito aos seus alunos do último ano do curso, e a colegas professores, sobre os resultados que a priori eles estimavam previsíveis: não mais de cerca de 1.5% dos alunos e dos professores esperavam que os SE prosseguissem para além dos 300 V (“choque intenso”).

Os resultados experimentais observados foram: 26 dos 40 SE (65%) continuaram a premir os botões até aos últimos níveis, com o máximo de 450 V ; apenas 4 se recusaram a passar além dos 300 V ; apenas 1 terminou antes deste nível. Dos 92% que responderam depois ao questionário, 84% manifestaram-se “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” por terem participado na experiência.

Entre os que prosseguiam a dar os pseudo-choques, a maioria mostrava sinais de crescente pressão emocional: suores, tremuras nos lábios e gaguejos de voz, unhas fincadas no corpo. Conta Milgram no primeiro artigo que publicou sobre esta experiência, em 1963: «Observei a entrada no laboratório, sorridente e confiante, de um negociante com maturidade e, a princípio, equilibrado. Em 20 minutos ficou reduzido a uma ruína, contorcido e tartamudo, aproximando-se rapidamente do colapso nervoso. Puxava a cada momento o lobo da orelha e torcia as mãos. A certa altura levou o punho à fronte e murmurou. “Meu Deus, paremos com isto!” No entanto, continuou a corresponder aos incitamentos do experimentador e obedeceu até ao fim.»

Milgram, nos anos seguintes, levou a cabo nos EUA e noutros países dezanove variantes da mesma experiência, com diferentes grupos de SE, efectuada dentro e fora do ambiente universitário. As diferenças mais notáveis surgiram quando os SE não tinham contacto com a presença física do experimentador, recebendo as instruções e incitamentos deste através de telefone: neste caso a percentagem desceu dos 65 para os 21%, com alguns dos SE a comunicarem que carregavam nos botões sem de facto o terem feito. Associando a testagem da obediência com a do conformismo, observou-se que, quando o SE estava acompanhado de 2 outros supostos “instrutores”, combinados com o experimentador para se recusarem a prosseguir a partir de certo nível, apenas 4 SE prosseguiram até ao fim da experiência. De resto, na variante original descrita, parece que desta vez não se encontraram aquelas diferenças significativas entre “noruegueses” e “franceses” que vimos no postal anterior; como também não entre novos e velhos, ricos e pobres, mais instruídos ou menos instruídos. ( Ocorre lembrar que a mesma irrelevância destes parâmetros socioetários se tem observado no caso da violência doméstica exercida sobre mulheres e crianças. ) Semelhantes percentagens à volta dos 65% foram encontradas por outros psicólogos que replicaram a experiência de Milgram. O último foi Jerry Burger, psicólogo da universidade católica de Santa Clara, na Califórnia, em 2008; cujo relatório foi publicado no número de Janeiro deste 2009 da revista American Psychologist. Por mim, gostaria de ter mais informações, que não tenho, sobre o montante da remuneração contratada com os SE, se o foi em todos os casos, e o momento e condições da sua entrega (ou devolução).

Há notícia de apenas um caso de “objecção de consciência”, ocorrido na Austrália com o psicólogo Robert Montgomery. Uma jovem estudante de 19 anos, que se tinha inscrito para participar na experiência, depois de informada que tinha de dar electrochoques a uma outra pessoa, recusou; e quando o experimentador insistiu com ela para reconsiderar, praguejou-lhe na cara com diogénica rudeza e saiu desabridamente do laboratório.

Tenho pena de não saber o nome desta jovem, que com tão eloquente determinação soube dar ao instrutor experimentador lição clara da diferença que vai da nobreza humana aos pequenos Eichmanns que existem dentro da maior parte de nós. Estou certo de que os caros bebedores deste Tonel erguerão comigo uma caneca de cerveja bávara em honra e memória da grande mulher.





[ Uma fotografia com Hans Scholl (1918-1943), Sophie Scholl (1921-1943) e Christoph Probst (1919-1943), assassinados por pertencerem a uma organização de resistência anti-nazi, chamada “Rosa Branca” e sediada na universidade de Munique. ]




6 Comments:

Blogger Sputland said...

Exmo. Pedro,
Ainda hoje me espanta como um homem pode ouvir a Sonata ao Luar, de Beethoven, enquanto assina os papéis que darão a morte a outro ser humano. Alguns dirão que Arte e Moral não intrincam laços de lógica, mas não consigo deixar de sentir um certo nó no estômago...
Contudo, espanta-me ainda mais a coragem de quem, contra tudo e contra todos, toma uma posição de força, mesmo arriscando-se, como foi o caso destes jovens (in-conscientes)da Rosa Branca).
Pois que é mais simples "andar com as orelhas em baixo".
Deixo-lhe aqui o link para os panfletos (seis) que o movimento Rosa Branca produziu antes de ser esquartejado:
http://www.holocaustresearchproject.org/revolt/wrleaflets.html

btw, mais um excelente post sobre um assunto que volta a estar cada vez mais na ordem do dia.

9:53 da tarde  
Blogger Pedro Isidoro said...

Caro Sputland:

Obrigado por ter enriquecido postal com a preciosa ligação.

E já agora, se é um amador cinéfilo, permito-me lembrar um aclamado filme "Sophie Scholl: The Final Days" (Die Letzen Tagecom uma bela interpretação da protagonista e com muito interesse pedagógico.

Apenas rebato com a maior veemência a palavra "inconscientes" que, decerto por lapso, escreveu a respeito dos jovens.

10:53 da manhã  
Blogger Sputland said...

Exmo. Pedro,
Muito obrigado pela indicação do filme, que procurarei visionar quando o encontrar.
A palavra "in-conscientes" não resulta de um lapso de teclado, mas é intencional. Refiro-me deste modo a uma consciência que animava estes jovens a sentir a necessidade de ter de fazer algo para despertar os seus vizinhos/irmãos/família para o horror do nazismo e o abismo para o qual conduziria os alemães. Por outro lado, não posso deixar de ver gesto senão alavancado num ideário de juventude, alimentado por uma fornalha filosófica, sem medo (por desconhecimento?) das consequências. Admiro-lhes então a coragem e reconheço-me cobarde...

9:20 da tarde  
Blogger Alexandra A. said...

Um tema que me apaixona, porque me intriga profundamente: a ténue fronteira entre a "nobreza humana e os pequenos “Eichmanns” que existem dentro da maior parte de nós". Que existem em 65% de nós...
É demais, é inaceitável, mas (como o demonstram todas as experiências desenvolvidas por psicólogos sobre o tema), é real: é mais fácil obedecer do que ser solidário/empático para com quem sofre.
Aristides de Sousa Mendes e o grupo da Rosa Branca são, por isso, para mim, exemplos para a vida.

Parabéns pela escolha do tema e pela forma como aqui é tratado.

9:19 da tarde  
Blogger Pedro Isidoro said...

Estimada Alexandra A.:

65%? Nem mais nem menos? Cuide-se das estatísticas dos políticos, mas não menos com as dos psicólogos e dos mais que dessa banda surgem vestidos com a rica pele de "cientistas"...

1% já seria muito! O suficiente para, com o tempo, apodrecer todo o fruto. Pela minha experiência, não me espantava que fossem mais de 65. Mas, certo, certo e seguro para mum é que houve e há muitos mais (e melhores) Aristides do que os que gostam mais dos cães que dos homens gostariam de fazer crer.

1:20 da tarde  
Anonymous Anónimo said...


A resistência alemã possível ao maremoto nazi, pós-33, pode datar-se simbolicamente da Kristallnacht de de 9 para 10 de Novembro de 38, quando o prefeito da polícia de Scollsberg, na Prússia oriental - Wichard von Bredow - se opôs de arma na mão à tentativa de assalto e destruição da sinagoga de Schierwindt.

E saiu vitoriosa em 45 quando puderm sair para a rua sãos e salvos cerca de 3 000 judeus que os berlinenses tinham escondido e protegido dentro da cidade, na barbela do sr. Hitler e seus mastins.

10:02 da tarde  

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