sábado, março 07, 2009

NA GAIOLA DE SKINNER ( I )


Imagine o caro leitor sete indivíduos que são levados a uma sala para fazer um teste psicotécnico de discriminação perceptiva. Mostram-lhes dois grandes cartões brancos, lado a lado. No cartão A está desenhada uma barra vertical de 40 cms de altura. No cartão B estão desenhadas três barras, também verticais: a do meio tem exactamente os mesmos 40 cms; as outras 38 e 35 cms.. A questão posta pelo experimentador é simples: qual das linhas do cartão B é igual à do A. Todos, interrogados um a um, acertam. O experimentador retira outro cartão, que mostra em vez do B: tem exactamente as mesmas três linhas com as mesmas dimensões. Todos voltam a indicar acertadamente a linha do meio. Depois da terceira vez, com mais um cartão igual ao B, seis dos sete inquiridos respondem que é a linha de 38 que é igual à linha-padrão de 40 no cartão A. O experimentador vai perguntando se têm mesmo a certeza de que é tal: os seis respondem sempre que sim. Acontece que os seis estão combinados com o experimentador. E acontece que aquele que é, de facto, o único sujeito experimental (SE), vem a mudar de opinião e começa a errar com a maioria. Em repetidas experiências com SE diferentes, 37% deles mudaram de opinião, mesmo quando os outros insistiam numa linha com 17 cms de diferença relativamente à linha-padrão.

Afinal o suposto teste de percepção destinava-se antes a saber em que medida e segundo que variáveis um indivíduo é capaz de resistir, mais ou menos, à pressão da opinião duma maioria.

Uma das variáveis era, como seria de esperar, o número de indivíduos envolvidos: observou-se que bastavam dois para a percentagem de erros do SE subir para 14%; três faziam a percentagem elevar-se a 32%; e aumentava até 37% com sete indivíduos a pressionarem no sentido das respostas erradas. Uma das variáveis mais preponderantes na manutenção das respostas certas por parte do SE era quando este obtinha apoio para si de outro indivíduo (também previamente industriado para o efeito): bastava um único apoiante para as respostas correctas se conservarem em 90% dos casos. O peso desta variável era ainda confirmado pelo seguinte: quando o apoiante passava de repente para a opinião da maioria, imediatamente a percentagem de erros do SE subia acentuadamente; no entanto, quando o aliado apoiante apenas deixava a sala, o SE mantinha a sua opinião, sem variação apreciável. Saber que outra pessoa, embora já ausente, resistira à pressão do grupo, reforçava a persistência do SE. Comenta o psicólogo Howard Kendler a propósito: « É esta uma razão importante para os Estados totalitários não poderem tolerar a mais leve insinuação de oposição: oposição cria mais oposição. » Outra variável ponderosa na mudança de atitude tem a ver com a suposta identidade e estatuto dos sujeitos: quanto mais simpáticos, bem apresentados e prestigiados, mais facilmente o SE se conforma com a maioria.

Variáveis de tipo etnocultural e de personalidade parecem ter também um peso não negligenciável, embora ainda não suficientemente estudado. Testes efectuados pelo psicólogo Stanley Milgram (de que voltarei a falar) em 1961, com estudantes noruegueses e franceses, mostraram que estes últimos eram menos conformistas do que os nórdicos: « Tal resultado parece harmonizar-se com a história dos dois povos: os Noruegueses conseguiram continuar sob a mesma Constituição desde 1814, ao passo que os Franceses, no mesmo período de tempo, já viveram sob vários tipos diferentes de governo, incluindo quatro Repúblicas. A cultura norueguesa releva a cooperação e a responsabilidade social, ao passo que o individualismo e a discordância são fortes nas tradições francesas. » (Kendler) Já quanto à personalidade, parece que as pessoas com mais elevados índices de ansiedade ou que foram sujeitas a uma educação mais severa e com padrões mais rígidos tendem a manifestar maior conformismo. - « Não se pode, contudo, concluir que o não conformismo seja psicologicamente mais saudável que o conformismo. Psicóticos como os esquizofrénicos e os maníacos-depressivos são naturalmente não conformistas. » (idem)

Não façamos por nosso lado a inferência de que os noruegueses teriam mais tendências psicóticas… Lembrarei antes, a propósito, aquela manifesta tendência dos “Estados totalitários” a tratarem os seus opositores persistentes como “doentes psiquiátricos”. E julgo também ser de sublinhar, no trecho citado, aquele subtil – “não se pode concluir…” – sugerindo ao leitor “saudável” o temor de associar-se à categoria dos “psicóticos”: seria preferível ficar do lado duns vagos “índices de ansiedade” – eufemismo mais tolerável a todos os inseguros, indecisos e carentes da aprovação das maiorias.

Outro conjunto de experiências de laboratório, levadas a cabo nos princípios de 60 do século passado, importava também ao estudo das condicionantes da manutenção ou alteração de atitudes. – A um grupo 1 de SE eram apresentados alguns truísmos de senso comum (e. g.: “é bom lavar os dentes depois das refeições”; “é bom tirar radiografias cedo para despistagem precoce da tuberculose”, etc.). Estas máximas eram sustentadas com argumentos e conclusões todas a seu favor. A um grupo 2 eram apresentadas as mesmas, seguidas por algumas objecções a elas e, depois, argumentos que desfaziam essas objecções e concluíam a favor. Dois dias depois, ambos os grupos eram confrontados com mensagens atacando os truísmos. Observou-se que o grupo 2 registava sempre maior taxa de resistência à mudança do que o grupo 1. Novas experiências mostraram que esta taxa se mantinha mesmo que as mensagens anti-truísmo contivessem informação nova, não prevista nas objecções já conhecidas. Isto é: o modo como a informação tinha sido previamente apresentada ao grupo 2 parecia reforçar a imunidade deste à contra-informação ulterior. Notável é a conclusão que o mesmo psicólogo Kendler tira por conta própria: « Para ensinar as pessoas a resistir à mudança das suas crenças, é útil expô-las a argumentos opostos. Por exemplo, se se deseja ensinar os estudantes americanos a resistir a mudanças nas suas crenças pro-democráticas devem inocular-se-lhes ideais anti-democráticas e proporcionar-lhes uma série de objecções, em vez de os encorajar apenas a ser cegamente patriotas. »

Não façamos por nosso lado a inferência de que o "pensamento crítico", em que tanto insistem as modernas pedagogias, serviria apenas para conservar uma dada situação social e política...

Notáveis, a conclusão e o exemplo. É claro, a “inoculação” tem de ser de “formas fracas” da contra-ideologia, para ser possível resistir a “certos germes”, como diz o psicólogo inspirado nas terapêuticas vacinadoras. Mas não diz, nem me consta, qual seja a medida precisa da dose imunizadora. Na caixa de Skinner, que os nossos brasileiros melhormente nomeiam de “gaiola” ( pomposamente chamada pelos profissionais behavioristas “câmara de condicionamento operante” ) os ratos andam sobre uma grelha eléctrica, e assim é fácil saber qual a medida da voltagem precisa suficiente para condicionar o comportamento, sem fulminar o animal. No caso dos humanos, havia a dificuldade suplementar duma velha variável, sempre esquiva à mera experimentação comportamentalista: a personalidade dos indivíduos – os SE que, independentemente da pressão do grupo, mantinham sempre até ao fim a sua posição. Grande problema! Havia que tratar dele…


( A CONTINUAR )



[ « Quem aprisiona os cativos, se eles estão do lado de cá das grades, praticamente todos sem grilhetas nem amarras, livres de circular pelas infinitas escadarias, pelos emaranhados de pontes, por baixo dos arcos, sob as cúpulas? (…) Quando são desenhadas com detalhe, as pessoas assemelham-se de tal maneira a esculturas ou altos-relevos que parece que a sua mera presença as condena a converterem-se em pedra. Naquela urbanização carcerária apaga-se o ser humano. É esta a forma suprema de aprisionamento, a perda de identidade de uma população de espectros…. »

João Bernardo, Os Labirintos do Fascismo, Porto, 2003, a propósito da série de gravuras de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778) tituladas Le Carceri d’Invenzione; que poderíamos traduzir no português contemporâneo por “Centros Comerciais”… ]

3 Comments:

Blogger Sputland said...

Caro Pedro,
apenas me ocorrem duas palavras: "mouche" e "1984". A primeira referindo-se ao acerto invejável da análise das diferenças entre conformidade e conformismo, de que se podem extrapolar inúmeros exemplos; a segunda referindo-se àquela reestruturação da realidade que traz um novo dia e...uma nova realidade.
(Isto faz-me lembrar, num caso concreto, aquele miúdo da "Aparição", de V. Ferreira, que repete de si para consigo a mesma palavra, infinitamente, até que, subitamente, explode e deixa de ter um sentido... - que fazer doravante? A reconstrução do Grand Canyon do real, uma coisa igual, mas, contudo, a sua imagem no espelho: parece, parece, mas não é mais o que foi. E, os poucos que vão restando dos que conheciam a realidade do real, convertem-se no louco de Nietzsche ou, pior, no prisioneiro de Platão, agora sem voz).

8:11 da tarde  
Blogger Pedro Isidoro said...

Estimado Sputland:

O se comentário alcançou já aonde eu queria ir... e estamos já: a expressão "Grang Canyon do real" é especialmente sugestiva, também porque fala de desertos e formações rochosas que fantasiam seres vivos, pessoas; e e estas, às vezes, parecem-nos emparedadas ou empedernidas, sombras de si na Caverna platónica. Tenho falado aqui de desertos e ainda terei de falar: é onde estamos. Desertos e calor de grelha. Ou gelo. O meu caríssimo Georges Bernanos dizia que o inferno era de gelo, não de fogo.

Se o Sputland é artista, conto consigo para me ir corrigindo as perspectivas e abatendo miragens: lá diz o ditado que "quatro olhos nunca viram um fantasma"...

11:31 da manhã  
Blogger Sputland said...

Pedro,
O problema dos ditados populares é que, habitualmente, para a mesma situação têm dois ditados, quantas vezes antagónicos.
A minha cultura geral dos mesmos não me permite lembrar do que a este se opõe mas, a propósito deste que me apresenta, lembrei-me da seguinte ideia a acrescentar (que não se aplica necessariamnte a nós, neste caso):"...mas quatro olhos já podem fazer um falso profeta"

5:03 da tarde  

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