quarta-feira, junho 10, 2009

DIA DA RAÇA




 Não vejo medalhas,
nem marchas militares.
Vejo mil soldados
na rua a passear…
 

Vejo mil famílias
que passam, comendo
coisas e tremoços.
- Como ia dizendo


Tudo se passou
na Praça do Império.
Mas quanto à-vontade
nos rostos serenos!


E como não sou
presente ou pretérito
regressei a casa
nem que sim ou pós…


Não vejam na frase
nenhuma malícia.
Eu sou duma raça
futura na História.


E proclamo, enquanto
bebo vinho verde:
Avante, meu povo!
Cantai a “Portuguesa”!


Agora repouso,
relembrando os dias.
Releio Camões,
repenso os Lusíadas.



[ Se lembro bem, ainda não terá sido no primeiro “10 de Junho” pós-revolucionário que mudaram o nome ao dia que, até então, se memorava nomeado “dia de Camões” ou “dia da Raça”. Foi deveras um dia livre, desobrigado de cerimónias oficiais ou oficiosas. E ainda não tinham surdido umas cultas vozes a vozear que Camões era “fascista”, como se ouviram depois, em 75, ao tempo em que dos lados do ministério “da Educação” despachavam ordens aos professores de retirar das bibliotecas escolares os livros “fascistas” e queimarem-nos no pátio das escolas… Nem era ainda o dia das “comunidades portuguesas”, só estimadas para entesourar divisas, e há poucos meses ainda ofendidas mais uma vez com a última reforma eleitoral, desenhada para lhes dificultar o voto… Em suma: foi, esse 10 de Junho de 1974, um dia ainda limpo e livre; o dia em que Ruy Cinatti escreveu, com o descomplexado título supra, os versos transcritos, mais tarde publicados no livro O A Fazer, Faz-se (1976).

O poeta diz que é duma raça futura na História; que não é presente ou pretérito. E, todavia, fica-se relembrando dias, para terminar num presente indicativo e significativo: releio, repenso.

Camões, no último canto do Poema, fala de um Caminho da Virtude, de trabalhos imensos cheio. O épico, que o não soubesse dos gregos e latinos que letra e relera, podia sabê-lo de autoridade sua: a virtu era o exercício da qualidade e dignidade próprias do vir, da parte máscula do ser humano. ( Isto, em portugueses, não passava sem uma soberana (in)diferença da apatheia estóica e, muito menos, sem uma caneca cheia de bom verde. )

Nos postais de Maio que enderecei aos bebedores deste Tonel, temos visto quanta amargura, ou até arruda de algendo tédio, se pode misturar com uma alegria da melhor casta. Vimos como para Cinatti o repouso foi transitivo para o Caminho trabalhoso, e como ele soube aceitar e beber o cálice até ao fundo e ao fim. E, relendo e repensando bem, tenho que não há hoje outra maneira de fazer e vencer caminho. ]