quarta-feira, setembro 15, 2010

VINTE TESES PARA A FORMAÇÃO E SOBREVIVÊNCIA DE PORTUGAL


[ No título do postal anterior deixei implícita lembrança de uma notável obra – O Enigma Português (1960) – de Francisco da Cunha Leão, que a complementou com um Ensaio de Psicologia Portuguesa ((1971). Também em lembrança e homenagem da obra do ensaísta e do editor que tanto fez pela divulgação cultural entre nós, aqui deixo hoje à consideração do leitor as 20 Teses seguintes, como aparecem no cap. VI da 2ª edição (1973) da primeira das obras citadas. ]


1- Uma parte da Galiza e outra da Lusitânia formaram Portugal. (...)
2- Dois blocos regionais, secularmente emissores de população, e que não se misturam entre si, ainda hoje nos permitem, pela sua relativa natureza, ajuizar dos elementos humanos constitutivos de Portugal: - o Noroeste, cujos habitantes são identificados aos galaicos; e a zona montanhosa das Beiras, para os lusitanos.
3- Lusos e galaicos distinguem-se, posto que povos individualizados em finisterra, de parentesco próximo e afinidades incontestáveis.

4- O Português é uma síntese de lusitano e galaico, um luso-galego, e só metaforicamente lusitano.

5- O tipo do Português formou-se a partir da linha do Douro e Vouga – a charneira luso-galaica – ao longo da faixa de trânsito litoral, e daí por toda a Estremadura, Lisboa, Riba e Além-Tejo, com assimilação dos elementos exóticos.

6- A população portuguesa tende para a homogeneidade, pelo intenso convívio dentro de fronteiras oito vezes seculares, que a fácil articulação das comunicações ao corredor de trânsito litoral assegura, na estreiteza do seu território. (...)

7- A idealidade sonhadora, a contextura sentimental branda, mas rica em tonalidades e teimosia surda, o fundo instável da inquietação, a mundivisão saudosa, o pathos da alma portuguesa radicam-se no viveiro galaico, em sememlhança flagrante com a Galiza, propriamente dita; o espírito realista, de organização jurídica e independência pessoal, o talento político, a afirmação intrépida são principalmente lusitanos.

8- Os sentimentos dominantes do português tidos aparentemente, comummente por negativos e até por suicidas escondem carácter contraditório. Se fossem na essência assim depressivos, e patenteando-se eles há tantos séculos, a História de Portugal surgir-nos-ia absurda, por inexplicável e impossível.

9- A Saudade, fulcro da sensibilidade portuguesa, de modo algum é apenas retrospectiva; encerra um conteúdo insuspeitado de indeterminação e sentido futurante, pleno de impulso dinamogénico, por força do que insere de subconsciente, esperançoso apego à vida. A Saudade impregna toda a vida religiosa, sentimental e activa dos portugueses.

10- A forma de resistência nacional à adversidade é o Sebastianismo, inteiramente diversa da forma de resistência espanhola, o Senequismo.

11- A História de Portugal é uma história do Sentimento aproveitado, temperado pela Reflexão. Uma aventura consciente caracteriza-lhe os momentos mais densos, eficazes e significativos. Aventura consciente a independência, os descobrimentos, a formação do Brasil. A ruptura entre aqueles elementos, ora traz o domínio da Paixão, ora o da Razão correctiva. (...)

12- A História de Portugal, partindo da exiguidade geográfica, ao longo de um corredor marítimo, numa linha de força norte-sul, é uma história em trânsito contínuo, compensando-se com o Mar a escassez continental.

13- Com esse trânsito, de tendência oceânica, correspondente à sua idiossincrasia, o Português aprendeu a triunfar do meio geográfico, obteve as maiores vitórias sobre o espaço.

14- Os Descobrimentos e a Colonização constituem por isso a suprema afirmação dos Portugueses (...).

15- Na causalidade desse movimento trans-oceânico há que primeiro inscrever, entre outros estímulos, uma raiz antropológica , tão obscura como evidente, de interesse pelo mundo com apetência pelo desconhecido e pelo novo, a par do apego sentimental à pátria (...).

16- O Cristianismo teve na maneira de ser e actuação dos portugueses o mais decisivo esforço no sentido da destruição das barreiras raciais e das incompatibilidades culturais, com subsequente universalização do apostolado, e bem assim a institucionalização das mais belas formas do socorro humano.

17- Por sua vez, o curso histórico, além de individuar Portugal no quadro do mundo moderno, influiu na psique portuguesa num sentido activista, apurando-lhe as aptidões de adaptação e enriquecendo-a com experiência, com exotismo, calor e claridade. Com isso se distanciou da galega.

18- O fundo temperamental do Noroeste mantém-se, no entanto, como “limite” da sensibilidade portuguesa e da posição perante a vida.
A afirmação continua válida para os luso-descendentes.

19- A grandeza e intensidade do movimento histórico, a ambição e natural desgaste pelas desmedidas áreas e tarefas universais, retardaram a sistematização do conteúdo pensante português, já de si do tipo emocional e assistemático. Nos escritos poéticos e de viagens estão os expoentes do nosso génio.

20- No quadro hispânico a oposição psicológica, em muitos aspectos diametral, de portugueses e castelhanos, tem sido a prima razão e a salvaguarda instintiva da independência nacional.

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