terça-feira, agosto 24, 2010

EDUARDO DE OLIVEIRA



« De Melgaço, um automóvel pega-nos ao colo e pousa-nos na serra, onde nos diz adeus, sem mais, das suas rodas que fogem. Palmilhamos por entre as obras de construção da estrada a meia hora que nos separa de Castro Laboreiro, onde há tempo desejava vir. Castro Laboreiro interessou-me desde sempre, nem sei porquê. Pelo castro e as ruínas do arcaico castelo? Pelo sítio perdido nos confins? Pelos seus cães famosos? Nem sei. Imaginei-o centro de lendas e saiu-me ele próprio inacessível, remoto e vetusto, lenda de pedra e alturas. Antigo e perdido na erma paisagem sobre o vale a pique, onde o castelo é proa natural e milenar.

Procuramos o jovem abade amigo do António Jorge. Alto, magro, o rosto de criança onde paira a inocência duma certa tristeza resignada. Meio possesso de entusiasmo, queima nesse ardor mesmo o resto que a ordenação lhe levou. Vem connosco, monte acima, de pistola no bolso, a bengala na mão e o perdigueiro ao lado. Vive daqueles montes, que conhece como a palma das mãos, e da alma dos seus paroquianos, que talvez não conheça com tanto amor. Deve reconhecer melhor o penedo que o pecado, e saber tocar-lhe com mais jeito. Mostra-nos o caminho da aldeia onde vamos pernoitar. Despedimo-nos no alto do vale, entre o ladrar do podengo aos coelhos e as sombras que caem rápidas. Segue, solitário, no seu vulto de vigília que se destaca, triste, no cimo dum rochedo, com aquele cão, único companheiro da eternidade, ao lado. »

O nomeado António Jorge era Jorge Dias, o grande etnólogo continuador de José Leite de Vasconcelos. Os outros companheiros, não nomeados aqui, poderiam bem ser, como em tantas outras saídas por esses povos em fora (que eram outras tantas entradas no nosso mais interior português) a esposa de Jorge, Margot Dias; o minucioso e precioso desenhador e pintor Fernando Galhano; ou o Ernesto Veiga de Oliveira, não menos eminente etnólogo, que trabalhou com Jorge Dias, de quem era amigo de infância. Quanto ao escritor do texto, permanece hoje quase tão anónimo quanto o padre descrito, mas na descrição que faz logo se assina por quem é: um grande poeta da nossa prosa portuguesa do século XX. –

Pouco sei da pessoa e vida de Eduardo de Oliveira, nascido no mesmo ano de Jorge Dias (1907), e irmão do citado Ernesto Veiga de Oliveira. Nasceu no Porto, onde foi médico (como seu pai), e em 1977-79 ainda seria vivo, mas ignoro o ano em que nos deixou. Era melómano e executante amador de piano. Era poliglota viajado e versado nas literaturas alemã, francesa (em que chegou a versejar), inglesa, espanhola, sem falar da nossa: era, portanto, um representante típico daquele Porto Culto justamente descrito e louvado pelo cultíssimo Sampaio Bruno; e não menos categorizado representante daquele friso de admiráveis médicos-escritores (ou escritores-médicos) que tão bem nos têm tratado, como este aqui.

De Eduardo de Oliveira conheço duas obras de vulto: um diário em três volumes, que intitulou Monólogo, abrangendo os anos de 1942 a 48; e a narrativa Caminho de Santiago. São edições de autor, talvez quase só de exemplares para amigos, que tive a sorte de encontrar em alfarrabistas (um deles oferecido pelo inesquecível amigo Luís Reis, a quem saudosamente saúdo daqui). Por certas indicações que dá nos livros, terá escrito outros, mas só os citados vi na Biblioteca Nacional, e lá os verá o leitor feliz e privilegiado. O último escrito que tenho dele foi a colaboração que deu No Centenário de Teixeira de Pascoaes, um in memoriam publicado em 1979 pela Imprensa Nacional : é maravilhoso averbamento de tributo ao amigo cuja casa Oliveira fraquentava desde os dezasseis anos (não menos maravilhosos os encontros com Pascoaes que nos conta no seu diário, a começar por aquele de 15 de Fevereiro de 1943).

Nos três volumes do Monólogo o leitor curioso e exigente encontra-se bem servido de tudo, a cada página: a prática do médico com os seus doentes, dentro e fora do consultório; descritivos etnográficos da paisagem social e natural (principalmente do Norte); apreciações literárias e crítica musical; notícias da 2ª Guerra; impressões de passeios e encontros de acaso com a mais variada fauna humana, de todas as classes e condições... E tanto nos podemos encontrar numa branda isolada nas cumieiras da Peneda, ou nos extremos altiplanos de Rio de Onor (aonde Oliveira acompanhou também os trabalhos de Jorge Dias), como no teatro de S. Carlos ou na Opéra de Paris; tanto nos bairros pobres do Porto com o médico atencioso e compadecido, como a passear nos areais de Fão ou a ler Samuel Pepys ou Scarron. Mas, na miscelânea, isto sempre: o trato sensível e humaníssimo do clínico geral em humanidade atenta e solidária; a funda meditação existencial do homem e o fino tratamento da linguagem do grande curador e artista dela, que foi Eduardo de Oliveira. É pena que este poeta e discreto amigo de poetas como Sophia, Torga, Eugénio de Andrade ou o já citado Pascoaes, tenha ficado num muito mais discreto reconhecimento público.

O trecho acima é datado de Lamas de Mouro. Eis o registo do dia seguinte :

« Branda de Ceira - Serra da Peneda, 24 de Agosto (1945).
Enquanto o cavalo carrega as mochilas, vamos num salto ao banho, no rio do mouro. Saímos refrescados, sem sombra de mouro ou mesmo de cristão; só as serras em redor e, firme entre os loureiros, a nossa nudez pagã. Trepamos lentamente a ladeira, a calçada dos peregrinos que sobe até à Portela do Lagarto, para aí descer, por uma vereda pedregosa, meio arborisada, até ao santuário da Senhora da Peneda, na sua igreja maciça, lanços de escadório e capelas barrocas, dos Passos, rodeado das casas dos romeiros, a confraria, o hotel e mais apensos. Isto a dez ou quinze quilómetros, pouco mais ou menos, do ponto mais próximo com estrada. (...)

Nós é que resolvemos não ficar à sombra da santa e trocamo-la pelo alto divino da serra, no seu cume, a pouca distância do marco geodésico, numa cabana de pastores. Leva-nos agora as mochilas o macho do Dourado, almocreve e contrabandista às suas horas, de vinte e nove anos, alto e magro, a quem não larga dum passo o Famalicão, o cachorro de dois palmos por um de alto e “fox”, que corre aquelas léguas sem fim ao lado do dono, com uma côdea e uma batata, e geme de vez em quando trilhado entre as patas do macho.

Subimos, subimos, e subimos. Para cima de quatro horas sem descanso e sob um sol de rachar. Procuramos a branda de Ceira, onde ficamos. O nome diz tudo. Uma brandura e macieza de relvas, com um fio de água à beira. E a cabana de pedra tosca dos pastores, onde dormem na cama de fetos que se levanta com eles ao amanhecer, quando passam a noite na serra. Como eles, por conselho de alguns com quem conversámos pelo caminho, apanhámos e trouxemos a lenha que aqui não encontraríamos. Os fetos colhem-se depois, já noite, em volta da branda, às braçadas, como flores. Ao longe, uns restos ainda lilazes do Gerês. A lua cheia, quente, sobe agora, devagar. Cozem-se as batatas com a lenha da providência. Come-se, e depois da ceia simples e da paz, protege-se tudo dentro da cabana, por causa dos bichos que porventura aqui apareçam. Andam por ali umas vacas, solitárias, sem ninguém a olhar por elas. Passam assim a noite, imagem animal do abandono e da distância.

Sentamo-nos em frente da cabana, naquele silêncio absoluto, experimentando-o fisicamente. Em volta, a serra incomensurável e aquela macieza da branda aos pés. Ao alto, o céu estrelado. Em nós, a baixar lentamente, assenta o benefício da canseirosa caminhada, à medida que o silêncio nos vai imobilizando, até parar o curso das nossas conversas e vidas, tornado pura pausa. »

Escolhi estre trecho menos por especialmente característico que pela saudade de experiência semelhante que vivi noutro sítio, “um dos locais mais mágicos que há em Portugal”, como na televisão se atreveu a divulgar o prof. Hermano Saraiva. Por uma vez, não exagerou... Mas os seus muitos tele-adimiradores invadiram entretanto o sítio, que hoje não fica mais profanado se eu disser ao meu leitor curioso e veraneante das boas coisas que inda por cá temos : é Antas de Mazes, nos altos arredores serranos de Tarouca. As antas terão existido, sim, mas delas só resta o nome; e a suspeita de que os pastores as terão usado para construir as colmadas brandas, ou a ponte singela sobre as águas duma ribeira que lá passa ao pé. Lave nela os pés o leitor andarilho e "devorado de horizontes": verá que lhe ganham asas.


[ Faz no corrente 2010 cem anos que nasceu o irmão de Eduardo, Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990). O leitor tem aqui uma ligação boa para ficar com uma ideia da formidável obra do grande etnólogo português: http://alfarrabio.di.uminho.pt/arqevo/textospa/html/evo/evobiobi.htm


E nesta pode ouvir-se a voz dele:



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