quarta-feira, outubro 20, 2010

ADENDA

O leitor pode ter ficado desagradavelmente surpreendido pelo plano demasiado alto em que pus a questão educativa, sem maior atenção e aplicação ao concreto da situação portuguesa. Mas as alusões esparsas que lhe fui fazendo parecem suficientes, considerando que a inércia da situação actual se prolongará por muitos e maus anos : atados que fomos de pés e mãos à “União Europeia”, acompanharemos o ocaso duma “democracia” (que subsistirá nas televisões e mediática propaganda) para o que, de facto, já é uma entenebrecida Oclocracia tecnicamente controlada por oligarquias de vocação imperial, segregacionista e esclavagista; isto enquanto prossegue entre nós o processo de reconfiguração social e cultural a que só acho paralelo no que passámos entre os sécs.V a X (mas que agora será mais apressado).

Contra essa inercial tendência, dir-se-ia que só uma revolução política. Como se sabe, ou facilmente intui, o subsistema educativo, na medida em que reflecte e reproduz o sistema social, só muda significativamente com a mudança na organização política do sistema social. Ora, o que a actual e previsível futura situação tem de (quase) inédito, historicamente, são estas duas exigentes características : a mudança teria de ser uma verdadeira revolução e, ao mesmo tempo, não será nem pode ser só política. Está encerrado o ciclo das “revoluções políticas” do género das que, entre 1820 e 1974, não têm sido senão golpes militares promotores de epidérmicas recomposições sociais : inalterada ficou sempre a mesma mentalidade subserviente e dependente do “Estado”. Acontece que este “Estado” não é hoje em Portugal mais que um estado de coisas tão mortífero para a sociedade nacional, que só merece propriamente um nome: etnocida. (Basta reparar no futuro que está reservado aos novos – desemprego, trabalho precário e escravo, ou emigração –, e a eutanásia socialmente assistida para os velhos; e, para todos, a condenação perpétua ao “serviço da dívida” para com os pagadores estrangeiros da vida de pobres que andámos a fazer de ricos.)

A libertação da sociedade civil relativamente a este “Estado” exigiria, pois, uma mutação mais profunda e sem medida comum com qualquer daquelas “revoluções políticas” que historicamente temos conhecido. Mas tal reivindicação de uma genuína Liberdade de ensinar e aprender - ou de não aprender -, liberdade que é (torno a repetir, porque já é tempo de ouvir!) incompatível de princípio com qualquer teoria e prática de escolaridades “obrigatórias”, - não se antevê. ( O que temos visto é a débil e frouxa resistência dos pais e autarquias ao encerramento e transferência compulsivos das crianças de tantas escolas básicas, desde 2005, um depressivo sintoma da falta de iniciativa resoluta e autónoma da sociedade civil na defesa dos seus interesses mais vitais. Assim se perdeu a oportunidade histórica de chamarem ao seu directo controlo e responsabilidade a gestão do património edificado escolar e da contratação e manutenção de professores para a educação dos seus filhos, ao menos nos nove primeiros anos de escolaridade. )

Uma reivindicação séria começaria por uma mutação da mentalidade : os juros mais altos e preocupantes não são os das finanças ou dos consumos, - são os do descaso multissecular de nunca termos levado a questão da educação a sério. ( Basta ver o tempo e a qualidade do debate que se lhe dedica nas campanhas eleitorais, comparativamente à obcecação com a “economia” ). Mas, tal mentalidade nova parece que só poderia resultar de uma educação nova que, por sua vez, parece que só poderia resultar de uma mentalidade nova...

É por isso que a reivindicação mais séria e consistente dessa Liberdade é a que de há muito tem sido e continuará a ser promovida e protagonizada pela Igreja. Uma reivindicação que é também um combate pela libertação da sociedade civil e pelos Direitos Humanos (veja-se o artº 26 da Declaração Universal de 1948, e o Protocolo 1, artº 2 da Convenção Europeia de 1950, acolhidos no 14º nº 3 da Carta dos Direitos Fundamentais inclusa no recente “Tratado de Lisboa”). Mas, única e precisamente por ser causa da Igreja, os poderes públicos só podem contrariar, de modo nenhum promover tal reivindicação. Os “novos poderes espirituais”, de que nos falava Comte, que querem “reorganizar a Europa” e o mundo, sabem muito bem que o mito moderno da “educação” é a tentativa de neutralizar e substituir a educação humana integral que é a educação cristã, convenientemente reduzida pela propaganda a educação “religiosa” e inimiga da “ciência”.

Agora, se o meu caro leitor quiser continuar à espera, como temos estado entre nós, desde 1820, que as mil reformas educativas mil vezes reformadas tragam enfim um Estado iluminado e competente sobre o que é e como é educar bem os seus cidadãos, - enquanto espera sentado terá muito tempo para ir meditando consigo se, além do mais, o grande mito moderno da “Educação” não se reduz afinal às naturais estratégias com que cada geração espontaneamente vai-se ajustando melhor ou pior aos sucessivos novos adereços e cenários em que vamos representando a tarefa de sobreviver no grande Teatro do mundo. O mais que exceda este estádio darwiniano que é o estado político das sociedades humanas, parece-me que já ficou suficientemente sugerido : os “fins espirituais” ( de que falava o meu caro Álvaro Ribeiro), transcendem os poderes públicos, que não lhes podem chegar e... não os podem evitar. Ora, o facto é que o grande embate entre as Duas Cidades não tem nem terá – como desde há dois mil anos... – nenhuma solução meramente “política”, e é já intratável ao nível dum conceito de cidadania “nacional” ou “internacional”. A questão já hoje confronta e directamente respeita ao homem universal : não a todos, em geral e abstracto, mas a todos e a cada um; convoca e decide-se no coração das razões e nas razões do coração de cada um de nós.


[ Um magnífico exemplo do tipo de livre decisão a que me refiro está na fotografia em baixo, e me conforta na esperança que tenho nas novas gerações, a quem tão pesados sacrifícios já estão e irão ser pedidos. Foi na praça de Tiananmen, em Pequim, Junho de 1989. Um outro exemplo, um belo raio de luz no ocaso das “democracias ocidentais”, foi a recente decisão sueca de atribuir o Prémio Nobel da Paz ao prisioneiro Liu Xiaubo, prisioneiro como nós, com a diferença de que ele passa mais tempo na cela, enquanto nós mais num distraído recreio, deambulando dum lado para outro... ]



1 Comments:

Anonymous Anónimo said...



Mais notícias sobre Tiananmen. Sintomático que os media ocidentais não dêem às chinesas o mesmo relevo mediático que deram às mães argentinas.

http://www.asianews.it/news-en/More-censorship-and-arrests-on-the-anniversary-of-Tiananmen-28108.html

10:38 da tarde  

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