segunda-feira, outubro 18, 2010

PROJECTOS EDUCATIVOS ( I )



« Visto o crescimento a que chegou o tipo de “homem gregário” na Europa, não seria altura de experimentar a metódica selecção, artificial e consciente, do tipo oposto ? »
Nietzsche
« Um novo poder espiritual, capaz de substituir o clero e reorganizar a Europa por meio da educação. »
Comte_____________________________

Os Projectos Educativos a que me refiro são os que interessam aos cidadãos de Duas Cidades e às respectivas opostas concepções do homem, do mundo e da vida. Convém lembrar que se trata aqui de cidadãos com interesses cosmopolitas, que se encontram misturados neste mundo, em todas as condições sociais e políticas.

O novo poder “espiritual” é o que vimos na semana anterior: a elite engenheira de empregados na inovação e manutenção dos sistemas automatizados de gestão e controlo de todos os sectores da vida social; os seus financiadores públicos e privados; e, sobretudo, o ainda mais restrito número dos altos sacerdotes apostados na separação das águas (humanos para um lado, sobrehumanos para o outro) e, a partir do caos e do nada (o “niilismo europeu”, de que falava Nietzsche), produzir com as suas engines of creation um remaking Eden: uma réplica caricatural e perversa, mas apelativa e cativante de «um novo céu e uma nova terra» (Apocalipse 21, 1)

Quanto à “educação”, não é difícil, nesta perspectiva, dar conta das estratégias montadas: para uma minoria seleccionada, preparação intensa e exigente em comteanos “conhecimentos positivos”; para a grande maioria dos desempregados, distracção e ocupação do tempo em “acções de formação” continuadas ao longo da vida, de formação em formação até... à reforma final.

As origens históricas deste Projecto advêm, no passado próximo, do “Iluminismo” setecentista, depois socialmente alinhado ao serviço do industrialismo progressista e positivista de oitocentos. O primeiro efeito histórico do Projecto foi a aniquilação da cultura popular tradicional nas sociedades europeias. Mas, ontem como hoje, também ele assenta no que essencialmente permanece inererente a qualquer projecto de educação, formal ou informal. (O informal subsume-se no normal processo de socialização dos indivíduos ao longo da sua vida social.) Quais são as suas finalidades permanentes essenciais ? –

A situação do sistema público educativo no actual momento da sociedade portuguesa, só comparável (não por acaso...) ao da “Justiça”, já foi apontada aqui. Como disse, é uma situação que não deixa de ser propícia ao repensar de raiz os alicerces dalguma reconstrução possível. Quando há nada (ou o heterónimo: caos), não é mau recomeçarmos humildemente por escutar as velhas palavras “instrução” (in+struere: compor, formar interiormente) e “educação” (e+ducare: conduzir, levar para fora), que temos usado ao longo dos tempos. No étimo significado dos termos estão nítidas as finalidades inerentes a qualquer projecto educativo humanamente completo:

(1) A formação da personalidade individual para (2) levar os indivíduos a serem capazes de sair do seu interesse privado até à civilidade social, (3) à cidadania política e (4) à universal humanidade.

Eis as complementares vias da instrução e educação, que se implicam e correspondem reciprocamente. Nos dois últimos séculos o paradigma dominante tem enfatizado (1) e (2), aliás praticamente reduzidos a conhecimentos e competências para uma empregabilidade profissional, e serviçal da engrenagem montada dos interesses sociais e económicos dominantes. Ora, antes do mais, eu perguntaria ao meu leitor português: - quanto a (1) onde está, no actual sistema público de ensino, a formação e robustecimento da vontade, tão essencial à liberdade ? E onde, a conexa formação e correcção da sensibilidade, para que a vontade não desvie duma recta razão alinhada com a lei moral? E onde, a “educação cívica”, essencial para a passagem de (2) a (3) ? Já vê que não havia exagero na redução que fiz do meu diagnóstico a uma palavra: nada.
( Quanto à memória humana, essencial ao desenvolvimento da identidade das pessoas e das culturas, já sabemos que está a ser evacuada e descarregada para os computadores...)

É de reparar que o Projecto que interessa à Cidade naturalista parecia não ser capaz de chegar a (4). De facto, para o naturalismo, existem indivíduos, grupos nacionais, estados políticos; a “humanidade” seria uma abstracção genérica sem nenhuma real concreção existencial. Mas a emergência e expansão da cultura tecnocientífica, coordenada com a expansão do capitalismo e dos mercados, os imperialismos políticos, juntamente com as questões ecológicas, forçaram esta concepção ao universalismo da “globalização”. Contudo, quer a este nível, quer no processo de (1) a (3), mantém-se constante o sentido: a formação de indivíduos para a coesão e liderança dos seus grupos (familiares, profissionais, políticos, etc.), no interesse desses grupos ou dos indivíduos que os lideram. De onde resulta a eventualidade possível de o interesse de um grupo, confundido com o intresse de alguns poucos indivíduos, não vir senão a beneficiar uns poucos (ou até um único), como se tudo de concentrasse e reduzisse afinal a (1). Tudo se passa assim como se, nesta concepção, tudo continuasse como “à lei da Natureza”, em que no grupo hierarquizado animal o interesse vital do grupo se identifica com o do seu líder ; e a educação formal não se distinguiria claramente dum natural processo de socialização. Mas, desta maneira, parece que não seria possível, neste Projecto, aceder plenamente à universalidade de (4). Assim parece, naturalmente; e é um ponto (não decisivo) em seu desfavor. Mas, como disse, foi obrigado a confrontar-se com o universal, pelas intrínsecas tendências totalitárias do Projecto e pelas circunstâncias sobrevenientes à “globalização”.
Historicamente, na perspectiva naturalista tradicional, (1) sempre foi da imediata e directa responsabilidade dos progenitores e parentela próxima. Mais recentemente, a mãe de família veio a ter um papel preponderante. Ainda mais recentemente, as necessidades capitalistas de mão-de-obra numerosa empregada o mais tempo possível, afastaram os pais dos filhos, estes entregues precocemente a instituições de formação colectivista e abandonados depois ao devaneio solitário com a televisão e os computadores. É este um ponto onde muito claramente se pode avaliar quanto os efeitos sociais da cultura tecnocientífica subverteram de todo a concepção naturalista tradicional, incluindo também a abolição forçada das diferenças na educação de homens e mulheres. Uma abolição deveras impressionante, porque apaga as mais óbvias e naturais diferenças entre os indivíduos, e anula o senso comum tradicional que, em respeito a essas diferenças, previa diferentes formas de formação para rapazes e raparigas. Separando, por um lado, os pais dos filhos e, por outro, misturando os indivíduos com desprezo das suas mais óbvias diferenças, e acabando por os isolar, afogar e arrastar todos nos mundos virtuais da televisão e da Rede, a concepção “naturalista” veio afinal a revelar-se como o que essencialmente é : - anti-natural. E isto é consistente com o outro resultado que, desde o início, acompanha a expansão do capitalismo tecnocientífico: a conspurcação e aniquilação do meio ambiente natural. (Mas, como sugeri no postal anterior, este Projecto está hoje no ponto de questionar o que é “natural” ou “artificial”, com o esbatimento deliberadamente promovido de fronteiras tradicionalmente estabelecidas. É uma questão para a qual, creio eu, só o Projecto alternativo tem uma resposta racionalmente suficiente.)

Com o desemprego crescente de homens e mulheres descartados por um sistema de produção cada vez mais altamente especializado, maquinizado e automatizado, e com a reforma profissional de muitos, dir-se-ia que (1) pode volver ao controlo directo de pais e avós. É, sem dúvida, uma oportunidade nas famílias que resistirem à dissolução. Teríamos pais com bons níveis de qualificação escolar e disponibilidade para chamarem a si o protagonismo na educação dos filhos, ou a intervirem mais e a exigirem melhor de outras instituições educativas, públicas ou privadas. Infelizmente, acho esta possibilidade ainda longe de uma oportunidade. E receio muito que o maior número, sem nenhuma verdadeira educação familiar ou escolar, embrutecido por toda a espécie de drogas e por um ócio sem sentido humanamente útil, não tenha oportunidade nenhuma. Mas, como já dizia Demócrito, ocasionalmente encontra-se mais sabedoria na gente nova do que nos velhos: pode ser que em futuras gerações um certo número de jovens destemidos e alérgicos a computadores, ou precocemente crescidos e advertidos por sofrida experiência própria, ensine a seus alienados pais que é muito mais digno e interessante jogar a vida com a Natureza viva (que restar) do que jogar no Farm Ville...

Tenhamos esperança.

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