terça-feira, setembro 21, 2010

LITERATURA POPULAR E LITERATURA ERUDITA

Apesar da solene e selecta intransigência do Doutor António Ferreira e dos classicistas letrados que começavam a apelar mais a mitológicas musas da antiguidade do que à música dos versos cantados e instrumentalmente acompanhados (apelando a musas mais acesíveis da actualidade...), - no século XVI ainda não havia divórcio entre a poesia “popular” e a “erudita”. Baste lembrar dois nomes: mestre Gil Vicente, de quem José Leite de Vasconcelos disse - "Conhecia directamente todos os recantos da etnografia: costumes, superstições, literatura, linguagem"; e, também no XVI, Gonçalo Fernandes Trancoso, dos Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, inspirados em contos populares, que o autor coligiu para distrair os serões lisboetas duma cidade assolada pela peste - a mesma que levou Ferreira.

Como os velhos trovadores palacianos teriam nas suas Cantigas de Amigo refrães que andavam nas bocas do povo, assim uns tantos motes notados como “alheio” nas Flores do Lima de Diogo Bernardes teriam sido colhidos de anónimas cantigas populares da cultura tradicional. Este, por exemplo:

Já não posso ser contente,
Tenho a esperança perdida;
Ando perdido entre a gente:
Nem morro, nem tenho vida.

Eis a primeira décima da glosa de Bernardes:

Depois que meu cruel fado
Derribou uma ‘sperança
Em que me vi levantado,
No mal fiquei sem mudança
E do bem desconfiado;
O coração que isto sente
À sua dor não resiste,
Porque vê mui claramente
Que, pois nasci para triste,
Já não posso ser contente.


No século XX, o poeta popular alentejano Manuel António de Castro (1885-1972), conhecido por “Castro da Cuba”, pegava destarte o mesmo mote:

Quebrou-se o laço que era
Meu enlevo de viver;
Quero, não posso esquecer
A dor que me dilacera;
Passa doce a Primavera,
Para mim é-me indiferente,
A minh’ alma já não sente
Perfume dessa beleza:
Galvanizou-se a tristeza,
Já não posso ser contente.



Manuel de Castro não era um poeta iletrado (como logo inculca no vocabulário: “enlevo”, “dilacera”, “indiferente”, “galvanizou-se”...), e diz-se até que tinha “uma arca cheia de livros”. O antropólogo Paulo Lima, um bom conhecedor actual da nossa poesia popular, cita o exemplo acima como “prova cabal” da influeência e reutilização da literatura escrita erudita pelos poetas populares e, portanto, da não relevância da “dicotomia escrita versus oralidade”.

É possível. E pode ser que lá na sua arca o poeta cubense tivesse a edição de 1945 das Rimas de Bernardes. O que eu sei é que a mesma quadra que o limiano dá como “alheia” foi conservada pelo povo ao longo dos séculos, e o citado Leite de Vasconcelos não a deixou por recolher no seu Cancioneiro Popular Português (com a só alteração no último verso: Não morro, nem tenho vida.) E dá-a como colhida em Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo, poucos quilómetros afastada de Cuba...

Teríamos porventura aqui o caso de um perfeito (e raro) intercâmbio entre o “popular” e o “erudito”.

Este Manuel de Castro é o mesmo que já aqui eu citara, a propósito dum poeta – António Corrêa d’ Oliveira – cuja obra considero que nos dá no século XX a mais íntima e artisticamente realizada conjunção do “popular” e do “erudito”, a ponto de vermos bem o que há de postiço e surpérfluo na discriminativa qualificação. De facto, cumpre reconhecer a regra: os nossos grandes criadores literários, de qualquer época, reviveram na sua obra tipos humanos e formas de expressão “populares”, e até com denunciado carácter “regionalista”. Talvez aí estivesse uma natural condição da sua grandeza. O que eu creio é que o criador literário, ainda o mais letrado e erudito, dispunha assim de condições para ser uma autorizada voz do seu povo. (Mesmo os aristocratas, a começar nos próprios reis, desde o leite que mamavam das amas que eram mulheres plebeias, viviam em próximo e directo contacto com as classes populares).

Mas essa cultura popular desapareceu, graças à cultura tecnocientífica emergente do Iluminismo e da Revolução Industrial, que destilou e embriagou os povos com o grande mito moderno da “Educação”.

Desaparecidos ou atenuados os particularismos étnicos irredutíveis da cultura popular, a favor do avigoramento crescente da cultura cosmopolita, há condições para que na voz dos melhores criadores do futuro transpareça mais e melhor o que já antes era mais ou menos transparente nos melhores de antanho, fossem um António Aleixo ou um Fernando Pessoa : - a universal condição humana.

Mas não sei como o poderão fazer senão ainda na sua própria e distintiva língua natural. Ora, o perigo não está no bi ou multilinguismo (é de lembrar os nossos sécs. XVI e XVII), - mas na não aprendizagem sólida de nenhuma língua natural. Neste caso, depois da cultura “popular”, desaparecerá a seguir aquela cultura “erudita” centrada num nome sintomaticamente caído em desuso: “Humanidades”. Com o empobrecimento da mais espontânea e natural comunicação entre os humanos, e o investimento desiquilibrado na instrução e prática das linguagens artificiais (lógico-matemáticas) da tecnocultura cada vez mais dominante, as consequências mais que previsíveis estão aí já patentes diante nós : - desumanização e barbárie.

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